Cine clube Kapital – Sessão I

Car@s visitantes deste blog e participantes do cine clube Kapital,

é uma honra recebê-los aqui, sejam bem-vindos. Estamos iniciando um projeto que quer se transformar num espaço de reflexão sobre a sociedade e suas problemáticas, particularmente aquelas ligadas ao sistema capitalista. Esse projeto, porém, depende demais de sua participação, pois do contrário não construiremos esse espaço que prescinde de investimento de sentido e apropriação de uma coletividade.

Em nossa primeira sessão assistimos e debatemos o documentário “Sob vinte centavos” que trata das jornadas de junho de 2013 que tiveram como estopim o aumento das tarifas do transporte público. Quem não pode assistir ou quer assistir novamente ou baixá-lo, está aqui.

Em meu comentário ao documentário utilizei este slide que lhes disponibilizo (Cine clube kapital_Sessão I_Sob vinte centavos_Prof. Radamés). Meu argumento iniciou com a análise do historiador José Murilo de Carvalho sobre cidadania no Brasil. Entendo que essas manifestações põem em xeque o sentido de cidadania, bem como colocam em pauta outras formas de exercê-la rompendo com seu formato tradicional. Acredito que é importante para nós aprofundarmos o debate sobre essa questão, de forma que é recomendada a leitura desse livro (baixe aqui).

Uma obra referência para pensar as jornadas de junho é o livro editado pela editora Boitempo em parceria com Carta Maior “Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil” (baixe aqui). O livro traz autores de ponta nas discussões sobre a temática das manifestações populares pelo mundo e no Brasil, recomendo que leiam-se todos os artigos.

Livro Cidades Rebeldes

As jornadas de junho tiveram como grande impulsionador o Movimento Passe Livre, daí que é importante conhecer o movimento e entender que suas demandas não são pontuais, assim como compreender também que as manifestações não ocorreram por geração espontânea, que há um histórico de mobilização de uma década por trás delas. Recomento a entrevista que os representantes do movimento deram à TV Cultura no programa Roda Viva, bem como uma apresentação que Lucas Monteiro, um dos representantes, fez na câmara federal.

Em meus estudos sobre a questão política por trás dessas manifestações, deparei-me com a excelente análise de Rafael Balseiro Zin intitulada “O discurso que antecede a exclamação”, recomendo a leitura (baixe aqui).

É importante buscarmos uma compreensão mais ampla sobre a política e os novos atores que “sobem à cena” e eu considero o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle um dos mais brilhantes intelectuais da nova geração no Brasil que tem se dedicado muito a compreensão de todo esse processo social. Disponibilizo para vocês dois vídeos para que possam aprofundar a discussão: uma entrevista com ele intitulada “política e desencanto” e o programa Café filosófico intitulado “Quando novos sujeitos políticos sobem à cena”. Vale a pena conferir.

O Movimento Passe Livre tem como antecedentes a “Revolta do Buzu” que ocorreu em Salvador em 2003 e a “Revolta da Catraca” que ocorreu em Florianópolis em 2004. É importante conhecer esses movimentos, até para que não se perca de vista que esses movimentos não são isolados causos de explosão juvenil sem causa e sem história. Recomendo o documentário “Revolta do Buzu” e o texto “teses sobre a revolta do buzu” (leia aqui).

Insisto numa coisa: esses movimentos não existem no vazio histórico e é perniciosa a ideia de que, de repente, o povo acordou, o país acordou. Devemos desconfiar dessas ideias, ainda mais quando uma marca de uísque se apropria dela em suas propagandas, façamos esse exercício crítico de reflexão.

Outra obra importante para pensar sobre os movimentos populares, mas agora em nível mundial é o livro “Occupy: movimentos de protestos que tomaram as ruas” também editado pela parceria Boitempo e Carta Maior. Só consegui uma parte da obra em pdf, baixe aqui. O livro é bem barato, dez reais, é uma obra importante para quem quer pensar essas questões.

A questão urbana urge e um dos movimentos que busca humanizar as grandes cidades trabalha com a ideia de combate a lógica do transporte individual motorizado e propõe outro paradigma de transporte e vivência na cidade. É importante conhecermos essa perspectiva, nesse sentido, indico a obra “Apocalipse motorizado”, essa é a única indicação que não pude ler ou assistir, mas considerei pertinente citar (baixe aqui).

Para encerrar, outro aspecto fenômeno importante para pensar a questão urbana são os megaeventos que estão em pauta no Brasil devido, principalmente, a realização da Copa do Mundo de 2014 e a organização dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Que cidade é essa que emerge desses megaeventos? Qual é a proposta? Que modernidade é essa que nos achega? Essas são algumas questão que procurei desvelar juntamente com o prof. Leonardo Vasconcelos no artigo “A copa do mundo 2014 como instrumento de “modernização conservadora”: o caso de Fortaleza como cidade-sede” (baixe aqui).

Há muito mais o que ver, refletir, debater, essa é a minha contribuição. É só o começo, é nossa primeira sessão desse projeto que, eu espero, que contribua de fato para o debate sobre as principais problemáticas que nos interpelam no cotidiano. O espaço é de vocês também, construam esse projeto cine clube junto conosco.

Um abraço a tod@s.

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Introdução à sociologia – Psicologia

Car@s alun@s,

vamos falar de nossa querida disciplina. Em primeiro lugar, vamos ler nosso plano de curso (Plano de curso_Introdução à sociologia_Psicologia) para compreendê-la melhor e ter uma visão ampla dela. Na primeira aula utilizei esse slide para falar sobre o que é a sociologia (INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA_Aula I_Prof. Radamés Rogério). Recomendo, para uma melhor compreensão do que a sociologia estuda e como ela se constrói enquanto pensamento, o podcast produzido por dois componentes professores com os quais tenho o prazer de trabalhar na edição da revista Café com Sociologia: Sociologia: o que e é pra que serve.

Sobre o surgimento da sociologia, tema de nossa última aula, nosso texto para aprofundamento é extraído do livro “Um toque de clássicos”. Trata-se da “Introdução”, mas o livro é uma excelente fonte de estudos sobre a teoria sociológica clássica (baixe aqui).

Nosso próximo texto, é sobre socialização. Trata-se do texto de Peter Berger chamado “Socialização: como ser um membro da sociedade” (baixe aqui). Na próxima parte de nossa disciplina, iremos analisar a tese de Fernando Braga da Costa no livro “Homens invisíveis” que, infelizmente, não está disponível em pdf, de forma que teremos que recorrer a xerox. Trata-se de um melhores livros que já, portanto, quem quiser fazer um pequeno investimento e adquirir a obra, RECOMENDO.

Depois, passaremos a estudar o suicídio como fenômeno social, nesse sentido estudaremos as teorias de Émile Durkheim e Karl Marx. A obra de Durkheim chama-se “O suicídio” (baixe aqui). Depois lhes indico as páginas que leremos, mas recomendo toda a obra. Leremos também a obra “Sobre o suicídio” de Karl Marx (baixe aqui). Destas aulas ainda tenho slides para compartilhar oportunamente.

Para começar é isso, mais textos e material, disponibilizo depois. Bom estudo!

 

Introdução à antropologia – Psicologia

Car@s alun@s,

em primeiro lugar, disponibilizo o plano de curso da disciplina para que você possa compreendê-la (Plano de curso_Psicologia_Introdução à Antropologia). Na primeira aula gostaria de trabalhar om vocês esses dois textos extraídos do excelente blog Café com sociologia (recomendo, explorem, há muito material interessante) – os dois textos estão no mesmo arquivo aqui – Onacirema e Carta de um antropólogo perdido.

Os primeiros textos que leremos serão extraídos do livro “Aprender antropologia” de François Laplantine (Laplantine, François. Aprender Antropologia). Na aula de quinta-feira, quero que vocês tenham em mãos e tenham lido a introdução “o campo e a abordagem antropológicos” e o capítulo 1 – “a pré-historia da antropologia.

Dessa primeira unidade leremos ainda outro texto que lhes indicarei depois. Da segunda unidade, “experiências etnográficas” leremos primeiro o capítulo 9 do livro “A interpretação das culturas” do antropólogo britânico Clifford Geertz (clique aqui).

O segundo texto será extraído da obra “Corpo e alma” de Loic Wacquant (Wacquant, Loic. Corpo e alma: Notas etnográficas de um aprendiz de boxe). Ainda decidirei quais partes do livro leremos.

O terceiro texto é o trabalho etnográfico de Ronaldo Almeida sobre a igreja universal do reino de Deus chamado “A igreja universal e os seus demônios”. Esse livro não tem em pdf, portanto teremos que usar a xerox mesmo.

Por último, leremos a pesquisa de Mirela Berger sobre corpo, beleza e feminilidade (Artigo_Felicidade é entrar num vestido P).

No próximo post, disponibilizo os demais textos referente a unidade III.

Boa leitura!

Sociologia III – Zygmunt Bauman e Pierre Bourdieu

Car@s alun@s,

venho compartilhar mais material sobre nossos autores para rechear ainda mais nossa disciplina. Uma forma interessante de sabermos mais sobre estes, suas vidas, obras, teorias e conceitos são os vídeos, entrevistas e documentários.

Zygmunt Bauman gravou uma impactante entrevista para o programa Fronteiras do pensamento em que revela muito do seu pensamento acerca dos tempos em que vivemos. Digo que a entrevista é impactante porque ele faz afirmações marcantes e que nos fazem pensar muito sobre nossa sociedade e vida pessoal.

Pesquisando os links para fazer essa postagem para vocês, encontrei outra entrevista realizada por um professor brasileiro – João Manfio, a conferir.

Estamos carentes de vídeos, entrevistas e/o documentários em português sobre Norbert Elias e Anthony Giddens, mas não é o caso de Pierre Bourdieu. Sobre o autor há muitas vídeos-aulas, palestras e um importante e conhecido documentário “A sociologia como esporte de combate”.

Neste temos um sobrevoo sobre a intensa vida acadêmica/política do autor nos últimos anos de sua vida (1998 a 2001 – ele morreu em 2002). Recomendado demais. Leia ainda essas pequenas reportagens sobre a vida e a repercussão da obra do autor na sociologia (aqui e aqui).

Vale a pena ainda conferir essa vídeo-aula muito bem montada didaticamente falando sobre o conceito de capital cultural, conceito muito importante para compreender a teoria do autor, particularmente, sua contribuição na reflexão sobre a instituição escolar (uma das principais repercussões do pensamento do autor no Brasil).

Boa “leitura”!

Material didático – Sociologia III

Car@s alun@s, espero que tenhamos uma grande disciplina, contem comigo para isso.

Disponibilizo aqui textos que usaremos na disciplina e algumas leituras complementares. Vamos iniciar a disciplina pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Dele iremos estudar sua concepção de modernidade, a “modernidade líquida”, assim como iremos estudar as concepções de tempo e espaço nessa modernidade. Nesse sentido iremos ler a introdução do livro homônimo bem como o capítulo 3 tempo/espaço. Baixe o livro aqui.

Zygmunt Bauman

Na sequência, iremos trabalhar a concepção de modernidade, “modernidade tardia”, na obra do sociólogo inglês Anthony Giddens. Iremos ler a obra “O mundo na era da globalização” disponível aqui. Iremos ler os capítulos 1. “globalização”, 2. “risco”, 4. “família”. Este site tem uma série de livros de autores diversos das ciências sociais, inclusive do Giddens (clique aqui). Os livros com relação direta com o enfoque de nossa disciplina são “as consequências da modernidade” e “o mundo em descontrole”, confiram.

Anthony Giddens

O próximo autor é o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Se por acaso você fizer a besteira de escolher um desses autores para não ler (você não fará isso), não escolha Bourdieu, pois ele tem uma influência muito grande na sociologia brasileira e você precisará ter lido esse autor para fazer concursos e seleção de mestrado e doutorado. Iremos ler dois capítulos da obra “Questões de sociologia” disponível aqui, a saber, “Alta costura e alta cultura” e “como se pode ser desportista”. Recomendo esses artigos e “uma introdução a Pierre Bourdieu“, “A sociologia de Pierre Bourdieu“, o livro da coleção grandes cientistas sociais organizada por Renato Ortiz (aqui) e “Pierre Bourdieu: a herança sociológica“.

Pierre Bourdieu

Encerraremos a disciplina com a sociologia do alemão Norbert Elias. Iremos estudar o conceito de civilização, daí iremos ler o livro “o processo civilizador, vol. II” disponível aqui. Iremos a parte II, sinopse “sugestões para uma teoria dos processos civilizadores”. Ainda farei a seleção dos textos.

café com muita leitura, combinação cara ao sociólogo

Norbert Elias

Esse site (http://prestesaressurgir.blogspot.com.br/2013/09/obras-de-bauman-bourdieu-e-norbert.html) tem uma série de livros de Bauman, Elias e Bourdieu para baixar.

É isso, mãos (olhos) a obra!!! Muito trabalho, mas espero, muito aprendizado para mim e para vocês. Leiam o plano de curso da disciplina (Plano de curso_CS_Sociologia III).

“Vazio cultural? No Piauí não”. Sobre como não sabemos de nada sobre nós mesmos

Esses dias deparei-me com dois posts no facebook que me alegraram muito e ao mesmo tempo me alertaram. Os dois falam do Piaui, especialmente de Teresina e mais especificamente do mundo das artes, das manifestações culturais. Um é o documentário “Mulheres do rock no nordeste” que traz a história de moradoras de Teresina que são fãs de rock e contribuem de uma forma ou de outra para essa cena cultural alternativa no nordeste brasileiro (veja abaixo).

O segundo é o post do colunista do jornal O Globo, Hermano Vianna, exaltando a cena cultural do Piauí a partir da leitura de uma revista local chamada “Revestrés” (veja o site da revista). Em “Vazio cultural? No Piauí não“, ele narra ter recebido a revista no Rio de Janeiro pelos correios e narra a alegria de ver que não se confirma a ideia quase dominante que vivemos um vazio cultural no país, particularmente fora do eixo sul-sudeste – “Não conheço presente melhor do que receber notícias fresquinhas de novidades da produção cultural brasileira que acontece distante da Zona Sul carioca ou dos Jardins paulistanos”.

Ele destaca uma entrevista com o corógrafo e bailarino holandês – radicado no Brasil – Marcelo Evelin, capa do número 8 da revista. Se diz fã de Evelin e ressalta o quanto é interessante a entrevista e as ações culturais promovidas no estado com a participação do artista como “a criação do coletivo Núcleo do Dirceu, com sede no bairro Dirceu Arcoverde, ‘o mais populoso da periferia de Teresina’. Hermano Vianna afirma ter ficado envergonhado de nunca ter ouvido falar no “Mil casas”, o projeto em questão e arrebata afirmando que “o Núcleo do Dirceu se apresentou em mil residências do bairro, em 2011 e 2012. O que existe, na internet, de documentação dessas ‘visitas’ mostra que foi um dos grandes eventos artísticos brasileiros deste início de século.”

Bem, fiquei feliz por ambas as referências à Teresina e ao Piauí. Estou morando em Teresina faz seis meses e tenho vínculo com o Piauí desde 2012 quando passei no concurso para professor efetivo da Universidade Estadual do Piauí e fui alocado em Oeiras. Quem mora para as bandas de cá do país, falando mais especificamente do eixo Piauí-Ceará, tem a impressão que só se pode ouvir forró, fazendo da região uma aparente monocultura. 

Por favor, não digo que não haja culturas alternativas na música e na dança e que não haja pessoas que gostem e pelejem por outras manifestações culturais nesses estados, mas estou falando do que se escuta nas festas predominantes, do que os meus muitos alunos escutam e conhecem, do que se escuta na periferia e nos carros de luxo dos jovens abastados de Fortaleza e Teresina: é forró e quase só forró.

Ver outras cenas me deixa muito feliz, mas me deixou alerta: o quanto conhecemos a cultura local e o quanto estamos preocupados em conhecer? Quando vejo o colunista sulista dizer que sente vergonha por não conhecer um projeto cultural piauiense, o que eu, morador daqui, nascido aqui, devo sentir por também não fazer ideia do que ele está dizendo? Quando ele afirmou tratar-se de “um dos grandes eventos artísticos brasileiros deste início de século” fiquei arrepiado, ambiguamente por imaginar que temos isso aqui debaixo do nariz, mas também por não ter ideia que tínhamos.

Ok, você e eu não somos produtores culturais, “não somos da área”, mas a qual área a cultural da tua cidade pertence que não te pertence? Como não pertencer a isso? Estou feliz, muito feliz pelas referências, mas alerta porque preciso conhecer mais e melhor o lugar onde vivo. E você, está como?

Educação e meritocracia: uma relação incompreendida

Reproduzo abaixo, na íntegra, post do famoso blog do jornalista e doutor em Ciência Política Leonardo Sakamoto. Ele trata, com muita dose de algo que aprecio muito – ironia, da mal fadada relação entre educação e meritocracia, buscando desfazer da ideia de que o esforço pessoal é a chave para o “sucesso” em nossa sociedade. Sou um crítico ferrenho dessa ideia e tenho batido muito nessa tecla em sala de aula.

O discurso ligado à meritocracia abole o pano de fundo social das questões e foca nas qualidades individuais, algo absurdo para qualquer pensamento, mas nem por isso o seu discurso é menos convincente. Convence até que em nada se beneficia da suposta luta pelo mérito, pelo esforço, conforme podemos observar em qualquer conversa casual em qualquer esquina.

Num excelente artigo sobre o tema, intitulado Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira de Renato Santos de Souza, o autor define: “A meritocracia propõe construir uma ordem social baseada nas diferenças de predicados pessoais (habilidade, conhecimento, competência, etc.) e não em valores sociais universais (direito à vida, justiça, liberdade, solidariedade, etc.). (…) exacerba o individualismo e a intolerância social, supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso, bem como atribuindo exclusivamente ao indivíduo e às suas valências as responsabilidades por seus sucessos e fracassos”.

Como educadores, devemos levar esse tema para a sala de aula e para nossas casas e demais rodas de conversa, é preciso desarmar esse bomba. 

Boa leitura!

“A culpa por ser pobre e não ter estudado é totalmente sua

A culpa por você ser pobre é totalmente sua.

A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.

(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

(Violinos são substituídos por orquestra em êxtase.)

Ao ouvir um caso assim, não dá vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é como muitos querem que seja o brasileiro.

Enfim, a moral da história é:

“Se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que merece nosso desprezo. A propósito, morra!”

Uma vez, recebi reclamações da turma ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior” de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é claro.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito.

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!”

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.

Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.”

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar.

Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega, a responsável por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter responsabilidade na vida dos cidadãos.

Vocês acham sinceramente que “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou”?

Acham que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?

E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta?

Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?

Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Como já disse aqui, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que podem colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.

Que tipo de educação estamos oferecendo?

Que tipo de educação precisamos ter?

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho e a Ritinha acham que sim. Mas eu duvido.

Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/07/18/a-culpa-por-ser-pobre-e-nao-ter-estudado-e-totalmente-sua/ 

Desumanidade e docência ou docência desumanizante

Deparei-me com o texto/desabafo de uma professora de sociologia do ensino médio republicado no excelente blog Café com Sociologia (que disponibilizo abaixo) e passei a me questionar: a docência é uma atividade potencialmente humanizadora ou desumanizante? Existe essa potência, ou seja, ela é um dado a priori? O quanto estamos naturalizando esse processo e em nome de quê o naturalizamos?

No relato a professora nos chama a atenção para o quanto a burocratização excessiva do processo educacional potencializa a desumanização deste ao submeter professores e alunos a uma série infindável de exigências que afasta um do outro – o professor vê em sua frente números, estatísticas de aprovação, reprovação, metas etc., e os alunos veem notas, avaliações a serem feitas e metas a serem atingidas para que ela possa permanecer na caminhada. Isso retira do processo o seu sentido primordial e nos remete a uma escolaridade que, como disse alhures Pierre Bourdieu em “os excluídos do interior”, passa a ter como único objetivo ela mesma.

Entramos num ciclo pernicioso em que a escolarização vai se tornando algo, e cada dia mais e mais, insalubre, sem sentido, sem atratividade, perdendo o poder de transformar a realidade daqueles que dela participam, não só alunos, mas professores também. A desmotivação de professores e alunos é algo que grita nas escolas. Não sou propriamente um estudioso de campo (in loco), mas leio e acompanho o processo, converso com meus alunos/professores e vejo estampado em suas faces o quanto não acreditam no que fazem, o quanto não confiam que algo possa ser melhorado com a educação. A docência, nos termos postos pela professora que abaixo desabafa, é absolutamente desumanizante, pois baseia-se e forjar relação não-humanas.

A naturalização disso tudo está ligada a pelo menos duas facetas: 1. o professor, ao não acreditar no que faz, vê como natural que o processo educacional seja assim, pois ele não é consultado, não participa das decisões, vê-se como uma vítima do processo, incapaz de dar-lhe outras cores, impotente. Por sua vez, o aluno tem dificuldade de pensar, de forma mais ampla, o processo, vê-se tragado por ele e busca sua sobrevivência no interior de um sistema que, como afirma novamente Bourdieu, é absolutamente excludente, mesmo quando “inclui”. 2. o professor se submete e naturaliza essa submissão quando é tragado pela necessidade de sobreviver, quando depende totalmente daquele salário para se sustentar. É claro que isso não coloca ninguém, necessariamente, num processo de naturalização, mas empurra com força. Nesse caso, remeto-me a minha própria experiência, quando era professor de uma faculdade particular me submeti a sete turmas com uma média de trinta alunos, tendo que realizar seis avaliações por turma. Criticava tudo isso, achava um absurdo, mas pouco fiz para mudá-lo ou sabotá-lo.

O que fazer? Estou aqui pensando… pensemos juntos? Leia e reflita…

Desabafo de uma professora de Sociologia

Sou professora de sociologia da rede estadual do Rio de Janeiro. Devido ao baixo salário, sou obrigada a trabalhar também na rede privada. Tenho 22 turmas, metade na escola privada, a outra metade no Estado. Uma média de 40 alunos por turma no Estado e 60 na escola privada. Isso me dá cerca de 1100 alunos, e 1680 avaliações pra corrigir por bimestre. Dessas, 1400 são da rede estadual.

Tenho apenas um tempo de 50 minutos de aula com cada turma, o Estado me obriga a aplicar 4 avaliações: 3 regulares mais a recuperação. Em dia de entrega das avaliações não tem aula, por que não dá tempo em 50 minutos, além disso eu perco um dia de aula para a aplicação do SAERJ Brinco com meus alunos que eles tem mais avaliação do que dia de aula.

A escola me cobra também contabilizar a presença em cada aula e anotar nos diários, PARA CADA UMA DAS 11 TURMAS: conteúdo trabalhado em sala, notas, faltas incluindo os malditos pontinhos de presença (sim, querem que eu faça aqueles pontinhos em cada quadradinho, não só marcar as faltas). Me exigem também lançar as mesmas notas dos alunos que já estão no diário na página da SEEDUC, e entregar numa tirinha para secretaria. Ou seja, além das 1680 provas eu preciso preencher 11 diários e lançar as notas 3 vezes. Tudo isso com 50 minutos de aula. Sem esquecer que temos um prazo pra tudo isso, em torno de 2 semanas.

Também exigem que nós apliquemos o SAERJ, aquela prova que vocês devem ter visto circulando por aí, que subestima a capacidade intelectual dos meus alunos, um desrespeito com eles, além de reproduzir a meritocracia, que é absolutamente contraditória com uma perspectiva de ensino que visa reconhecer as particularidades de cada aluno. Muitos professores, por orientação da SEEDUC, dão pontos para os alunos que fazem o SAERJ, facilitando a sua aprovação, o que garante que com o número de aprovações escolares elevados para que assim o Governo do Estado possa pegar empréstimos com organismos financeiros internacionais. Sabemos que esse dinheiro não chega às escolas, nem passa perto.

Terça-feira é um dia cheio, dou aula para 8 turmas seguidas, pulo de sala em sala. Infelizmente não consigo gravar o nome de todos os meus alunos, muitas vezes não consigo reconhecê-los na rua, o que me entristece muito, porque desumaniza as nossas relações.

Em razão disso tudo, ou eu desobedeço as normas, ou só me preocupo com as burocracias, eu resolvi desobedecer as normas. Não aplico SAERJ, não lanço as notas no sistema da seeduc, marcos as presenças (quando me lembro de fazer), mas não faço os pontinhos, não obedeço severamente os prazos, reduzirei a quantidade de avaliações e me concentrarei nas aulas e debates em sala, mesmo com tão pouco tempo de aula eles são a parte mais importante da minha presença ali.

É um festival de desumanidades… desde as 22 turmas, as 1680 provas, os prazos, os pontinhos e lançamentos de notas diversas vezes, os 1100 alunos que eu “não conheço”, o salário extremamente baixo, o ato de processar professor que faz greve. Como se não bastasse, somos obrigados a trabalhar aos sábados (mesmo sem os alunos) por causa dos dias perdidos com a Copa do Mundo, até apanhar da polícia quando vamos às ruas reclamar por melhores condições de trabalho…

Quando você ouvir falar nos motivos da greve dos profissionais de educação, por favor se lembre disso”.

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TEXTO: MARIETTA BADERNA

Fonte: Midia Informal

Fonte: http://www.cafecomsociologia.com/2014/07/desabafo-de-uma-professora-de-sociologia.html – acesso em 05/07/2014.

Para compreender Michel Foucault

No próximo semestre terei o prazer de ministrar a disciplina de sociologia III no curso de Ciências Sociais e tenho certeza que trabalharei com Pierre Bourdieu e Anthony Giddens, obedecendo diretamente a ementa da disciplina. Provavelmente, porém, devo incluir Michel Foucault na “brincadeira”, ainda não estou certo disso, mas tenho muita vontade de fazê-lo. Por enquanto, disponibilizo esse texto para ir abrindo o apetite. Boa leitura!

Para compreender Michel Foucault

POR BRUNO LORENZATTO – ON 25/06/2014

Há trinta anos, morria filósofo-ativista que recusou papel de líder, mas estimulou a transgredir “verdades” fabricadas e eternizadas pelo poder

“Mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam, que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da história, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída.”
(Michel Foucault)

Há trinta anos, em junho de 1984, morria em Paris Michel Foucault. Um pensador do século XX que inventou certo modo radical de pensar, que atravessa este início de século: suas reflexões permanecem fundamentais para os movimentos de contestação política e social; para todos aqueles que desejam “saber como e até onde seria possível pensar de modo diferente”.

Foucault participou teórica e praticamente dos movimento sociais que poderíamos chamar de vanguarda de seu tempo, sobretudo durante as décadas de sessenta e setenta: a luta antimanicomial (sua experiência num hospital psiquiátrico foi uma das motivações que o levou a escrever História da Loucura); as revoltas nos presídios franceses (junto com Gilles Deleuze criou o GIP – Grupo de Informação sobre as Prisões, que buscava dar voz aos presos e às outras pessoas diretamente envolvidas no sistema prisional; com base nessa experiência escreveu Vigiar e Punir); o movimento gay (uma das motivações para sua História da Sexualidade).

O pensador francês também escreveu artigos para jornais e revistas no calor da hora sobre acontecimentos importantes, deu conferências e entrevistas em diversos países, inclusive no Brasil. Contrapunha seu papel de intelectual ao “intelectual universal”, isto é, uma espécie de líder que pensa pelas massas e as dirige para a “verdadeira” luta. O filósofo via a si mesmo como um “intelectual específico”, aquele que em domínios precisos contribui para determinadas lutas em curso no presente. Parafraseando Deleuze, Foucault foi o primeiro a ensinar a indignidade de falar pelos outros.

Ele dizia que suas pesquisas nasciam de problemas que o inquietavam na atualidade: evidências que poderiam ser destruídas se soubéssemos como foram produzidas historicamente; por isso fez da ontologia (o estudo do ser, um modo de reflexão geralmente desligado da realidade histórica, uma vez que busca princípios – as ideias, para Platão; o cogito, para Descartes; o sujeito transcendental, para Kant – que antecedem e, por assim dizer, fundam a história) uma reflexão em cujo cerne está o presente e, portanto, a investigação histórica.

Através de estudos transdisciplinares (e não entre disciplinas, pois trata-se de colocar em questão os limites entre elas), Foucault deu forma a uma crítica filosófica que recorre sobretudo à pesquisa histórica, para questionar as maneiras pelas quais certas verdades e seus efeitos práticos vieram a se formar e se estabelecer no presente.

Questionava assim os sistemas de exclusão criados pelo Ocidente quando do início da época moderna (na cronologia de Foucault, desde fins do século XVIII):

– o saber médico e psiquiátrico – a patologização e a medicalização como formas modernas de dominação sobre seres econômica e socialmente inconvenientes, os loucos;

– o nascimento das ciências humanas e da filosofia moderna como saberes que atestam a invenção do conceito de homem, transformando o ser humano, ao mesmo tempo, em sujeito do conhecimento e objeto de saber: o grande dogma da modernidade filosófica;

– a prisão e outras instituições de confinamento (tais como a escola, a fábrica, o quartel) não como um avanço nos sentimentos morais e humanitários, mas como mudança de estratégia do poder, que visa o disciplinamento e a docilização dos corpos;

– a sexualidade como dispositivo histórico de objetivação (o indivíduo como objeto de saber e ponto de aplicação de disciplinas) e subjetivação (o modo segundo o qual o sujeito se reconhece enquanto tal) do corpo, através dos quais se implica uma verdade essencial do homem. Não deixa de ser notável o fato de o Ocidente ter inventado um ritual singular segundo o qual algumas pessoas alugam os ouvidos de outras (os psicanalistas) para falarem de seu sexo.

Às suas pesquisas, ele chamou ontologias do presente: um modo de reflexão, segundo Foucault iniciado por Kant, em que está em jogo o vínculo entre filosofia, história e atualidade. A tarefa de pensar o hoje como diferença na história. Mas se a questão para Kant era a de saber quais limites o conhecimento deve respeitar (os limites da razão), em Foucault a questão se converte no problema de saber quais limites podemos questionar e transgredir na atualidade, isto é, “dizer o que existe, fazendo-o aparecer como podendo não ser como ele é” (2008, p. 325).

Nesse sentido, o filósofo procurava dar visibilidade às partes ocultas que formam o presente e os fragmentos de narrativas que nos constituem lá mesmo onde não há mais identidade, onde o “eu” se encontra fracionado pela história plural que o engendrou. De modo que esse questionamento histórico-filosófico não nos conduz à reafirmação de nossas certezas, de nossas instituições e sistemas, mas ao afastamento crítico dessas instâncias e de si próprio como exercício ético e político. Como indica Deleuze (1992, p. 119): “a história, segundo Foucault, nos cerca e nos delimita; não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir; não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos”.

A história (não a narrativa histórica ou a escrita da história, mas as condições de existência dos homens no decorrer do tempo, que lhes escapa à consciência), não é da ordem da necessidade; ela diz respeito à liberdade, à invenção; pertence à ordem mais da casualidade do que da causalidade; é feita mais de rupturas e violência do que de continuidades conciliadoras. Esse modo de conceber a história se opõe à imagem tranquila que a narrativa histórica tradicional criou: a história do homem como a manifestação de um progresso inevitável – o lento processo de realização de uma utopia –, que seria alcançado após o iluminismo pela aplicação dos métodos racionais. Como se a ciência, o pensamento e a vida estivessem continuamente mais próximos de verdades que aos poucos são reveladas como o destino final do homem.

Se os estudos de Foucault mostram que os seres humanos não dominam os acontecimentos que constituem o solo de suas experiências, eles atestam ao mesmo tempo que, no espaço limitado do presente, as pessoas dispõem da possibilidade de questionar o que muitas narrativas apresentam como necessário, assim como as formas de poder e dominação que se pretendem absolutas.

Os procedimentos de Foucault postulam, tal como Nietzsche descobrira no final do século XIX, que é possível fazer uma história de tudo aquilo que nos cerca e nos parece essencial e sem história – os sentimentos, a moral, a verdade etc. Essa descoberta indica que, mesmo esses elementos aparentemente universais ou imunes à passagem do tempo, se dão como contingências históricas, como coisas que foram criadas em um dado momento, em circunstâncias precisas.

Trata-se, assim, para Foucault, de pensar a história de determinadas problematizações: a história de como certas coisas se tornam problemas para o pensamento, dignas de serem pensadas por um ou outro domínio do saber e, através de formas de racionalização específicas, verdades são fabricadas. De maneira que suas pesquisas mostram que nossas evidências são frágeis e nossas verdades, recentes e provisórias.

Textos citados:

FOUCAULT, Michel. Estruturalismo e Pós-estruturalismo 1983. Ditos e Escritos II, Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento, Trad. Elisa Monteiro, Rio de Janeiro: Forense, 2008.

DELEUZE Gilles. A vida como obra de arte, Conversações. Ed. 34, Rio de Janeiro, 1992.

Link para o filme “Foucault por ele mesmo”:

Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/para-compreender-michael-foucault/ – acesso em 30/06/2014.

 

Modelos alternativos ao modelo heterossexual de família

Um aluno do curso de licenciatura em ciências biológicas estava em sua casa quando deparou-se com as seguintes manchetes que lhe causaram curiosidade: “Casal homossexual consegue registro de dupla maternidade na Justiça do RS” e “Criança é registrada com o nome de duas mães“.

Reportagem do Jornal Hoje sobre o registro de uma criança por duas mães

A partir daí ele elaborou o seguinte: “Partindo do principio de sociedade contemporânea, onde o normal seria a construção de uma família heterossexual, me surgiu algumas perguntas e, vendo que é um tema amplo, gostaria de ver a sua opinião. No padrão, Pai masculino e Mãe feminina: Como seria a inserção dessa criança a sociedade? Onde ficam os valores familiares? Qual o senso crítico que essa criança, ao crescer vai ter do padrão normal de família? O convívio no ambiente escolar, ou secular? Como vai ser a atitude a ser tomada pelas mães no momento que a criança começar a se inserir num mundo onde o padrão familiar é uma família heterossexual? Como as mães saberão lidar com o fato?”

Em primeiro lugar, fico feliz de você ter confiado a mim tais questões, é um assunto relevante e controverso. Nem sempre poderei elaborar dessa forma, no caso, até demorei quase um mês para responder, posto que estive doente e com trabalho acumulado, mas segue minhas considerações.

Creio que estamos vivendo o alargamento do conceito de família. Como toda transformação sociocultural, está longe de ser pacífica e gera conflitos, particularmente porque, supostamente, a família é uma entidade sagrada, daí “inalterável”. Existem diversos padrões socioculturais em nossa sociedade. Digo-lhe que eles são importantes, mas nem por isso devem ser cegamente seguidos. A mudança cultural carrega em seu princípio a capacidade do ser humano de autoquestionar-se, de rever seus próprios hábitos, costumes e modifica-los, para o bem ou para o mal. A primeira questão a ser levantada nesse debate é: esse modelo heterossexual de família é o único possível? É o único da história da humanidade? O antropólogo Claude Lévi-Strauss nos mostra em “A Família: origem e evolução” (1980) que não. Instituições sociais como a família, tiveram formatos diversos em momentos diversos da história da humanidade e a questão da bigamia ou monogamia respondeu em alguns momentos as necessidades dos povos, como, por exemplo, quando na cultura dos “Tódas” (p.13), a mulher tinha mais de um marido devido, dentre outras coisas, ao envolvimento frequente dos homens dessa cultura com a guerra, assim esse formato visava “proteger” a mulher da solidão causada pela viuvez (claro que não se pode analisar uma cultura somente pelo prisma da “utilidade” de seus mecanismos, a coisa é mais complexa sempre).

O formato monogâmico/heterossexual é hegemônico hoje no ocidente, particularmente, devido a influência da ética cristão que apregoa a sacralidade desse formato determinado por Deus. De partida já temos um peso enorme nessa moral, ou seja, é mais do que uma norma, do que uma determinação, é uma moral sacra. O debate gira em torno do quanto os modelos alternativos surgem para negar o modelo tradicional hegemônico colocando em risco a própria instituição família, mas eu questiono: o surgimento de outros modelos, ao contrário de enfraquecer, não fortalece a existência da instituição familiar? Esses modelos não representam formas diversas pelas quais a instituição busca manter-se forte e central para as pessoas? É a instituição família que é negada, enfraquecida ou é o modelo monogâmico/heterossexual?

Quanto as suas perguntas: 1. a questão da inserção da criança provinda de famílias baseadas em outros formatos/modelos: esta inserção não será fácil, a priori, devido muito menos ao modelo do qual ela provém e muitos mais devido ao preconceito e a resistência das pessoas. O desejo de manter o “certo” passa por cima do “fazer o certo”, ou seja, incluir os “excluídos”, principalmente se levarmos em conta a moral cristã. Mas isso não quer dizer que a criança não possa ser inserida, quer dizer que os pais, e a própria, terão bastante trabalho. 2. Onde ficam os valores familiares? Depende, se estiver tratando os valores hegemônicos, eles ficam questionados, postos em xeque, mas não necessariamente negados. Acredito que haja espaço para diversos modelos em nossa sociedade, desde que a tolerância e o respeito a diferença cresçam e sejam valorizados. 3. Como as mães lidarão com isso tudo: terão a dificuldade que qualquer mãe tem em inserir o seu filho(a) no mundo, mas potencializado pela carga negativa a mais que a sociedade lançará sobre eles, mas não tão diferentes das dificuldades que enfrentam as mães de crianças deficientes mentais, negras, pobres, “efeminadas”, estrangeiras, dentre outras.

Mesmo cristão protestante, proponho não “descermos” ao nível da questão do certo ou do errado, mas sim proponho uma ode à tolerância com as diferenças. Modelos diversos são possíveis de ocorrer juntos e ao mesmo tempo, e os modelos estabelecidos por séculos podem ser questionados sim. Por trás desse modelo hegemônico há relações de poder e dominação, nunca nominadas ou consideradas, temos que considerar isso. Este é o meu posicionamento.

Um abraço e obrigado de novo pelas questões e pela confiança em dividir suas dúvidas comigo.