Esses dias deparei-me com dois posts no facebook que me alegraram muito e ao mesmo tempo me alertaram. Os dois falam do Piaui, especialmente de Teresina e mais especificamente do mundo das artes, das manifestações culturais. Um é o documentário “Mulheres do rock no nordeste” que traz a história de moradoras de Teresina que são fãs de rock e contribuem de uma forma ou de outra para essa cena cultural alternativa no nordeste brasileiro (veja abaixo).

O segundo é o post do colunista do jornal O Globo, Hermano Vianna, exaltando a cena cultural do Piauí a partir da leitura de uma revista local chamada “Revestrés” (veja o site da revista). Em “Vazio cultural? No Piauí não“, ele narra ter recebido a revista no Rio de Janeiro pelos correios e narra a alegria de ver que não se confirma a ideia quase dominante que vivemos um vazio cultural no país, particularmente fora do eixo sul-sudeste – “Não conheço presente melhor do que receber notícias fresquinhas de novidades da produção cultural brasileira que acontece distante da Zona Sul carioca ou dos Jardins paulistanos”.

Ele destaca uma entrevista com o corógrafo e bailarino holandês – radicado no Brasil – Marcelo Evelin, capa do número 8 da revista. Se diz fã de Evelin e ressalta o quanto é interessante a entrevista e as ações culturais promovidas no estado com a participação do artista como “a criação do coletivo Núcleo do Dirceu, com sede no bairro Dirceu Arcoverde, ‘o mais populoso da periferia de Teresina’. Hermano Vianna afirma ter ficado envergonhado de nunca ter ouvido falar no “Mil casas”, o projeto em questão e arrebata afirmando que “o Núcleo do Dirceu se apresentou em mil residências do bairro, em 2011 e 2012. O que existe, na internet, de documentação dessas ‘visitas’ mostra que foi um dos grandes eventos artísticos brasileiros deste início de século.”

Bem, fiquei feliz por ambas as referências à Teresina e ao Piauí. Estou morando em Teresina faz seis meses e tenho vínculo com o Piauí desde 2012 quando passei no concurso para professor efetivo da Universidade Estadual do Piauí e fui alocado em Oeiras. Quem mora para as bandas de cá do país, falando mais especificamente do eixo Piauí-Ceará, tem a impressão que só se pode ouvir forró, fazendo da região uma aparente monocultura. 

Por favor, não digo que não haja culturas alternativas na música e na dança e que não haja pessoas que gostem e pelejem por outras manifestações culturais nesses estados, mas estou falando do que se escuta nas festas predominantes, do que os meus muitos alunos escutam e conhecem, do que se escuta na periferia e nos carros de luxo dos jovens abastados de Fortaleza e Teresina: é forró e quase só forró.

Ver outras cenas me deixa muito feliz, mas me deixou alerta: o quanto conhecemos a cultura local e o quanto estamos preocupados em conhecer? Quando vejo o colunista sulista dizer que sente vergonha por não conhecer um projeto cultural piauiense, o que eu, morador daqui, nascido aqui, devo sentir por também não fazer ideia do que ele está dizendo? Quando ele afirmou tratar-se de “um dos grandes eventos artísticos brasileiros deste início de século” fiquei arrepiado, ambiguamente por imaginar que temos isso aqui debaixo do nariz, mas também por não ter ideia que tínhamos.

Ok, você e eu não somos produtores culturais, “não somos da área”, mas a qual área a cultural da tua cidade pertence que não te pertence? Como não pertencer a isso? Estou feliz, muito feliz pelas referências, mas alerta porque preciso conhecer mais e melhor o lugar onde vivo. E você, está como?

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