Deparei-me com o texto/desabafo de uma professora de sociologia do ensino médio republicado no excelente blog Café com Sociologia (que disponibilizo abaixo) e passei a me questionar: a docência é uma atividade potencialmente humanizadora ou desumanizante? Existe essa potência, ou seja, ela é um dado a priori? O quanto estamos naturalizando esse processo e em nome de quê o naturalizamos?

No relato a professora nos chama a atenção para o quanto a burocratização excessiva do processo educacional potencializa a desumanização deste ao submeter professores e alunos a uma série infindável de exigências que afasta um do outro – o professor vê em sua frente números, estatísticas de aprovação, reprovação, metas etc., e os alunos veem notas, avaliações a serem feitas e metas a serem atingidas para que ela possa permanecer na caminhada. Isso retira do processo o seu sentido primordial e nos remete a uma escolaridade que, como disse alhures Pierre Bourdieu em “os excluídos do interior”, passa a ter como único objetivo ela mesma.

Entramos num ciclo pernicioso em que a escolarização vai se tornando algo, e cada dia mais e mais, insalubre, sem sentido, sem atratividade, perdendo o poder de transformar a realidade daqueles que dela participam, não só alunos, mas professores também. A desmotivação de professores e alunos é algo que grita nas escolas. Não sou propriamente um estudioso de campo (in loco), mas leio e acompanho o processo, converso com meus alunos/professores e vejo estampado em suas faces o quanto não acreditam no que fazem, o quanto não confiam que algo possa ser melhorado com a educação. A docência, nos termos postos pela professora que abaixo desabafa, é absolutamente desumanizante, pois baseia-se e forjar relação não-humanas.

A naturalização disso tudo está ligada a pelo menos duas facetas: 1. o professor, ao não acreditar no que faz, vê como natural que o processo educacional seja assim, pois ele não é consultado, não participa das decisões, vê-se como uma vítima do processo, incapaz de dar-lhe outras cores, impotente. Por sua vez, o aluno tem dificuldade de pensar, de forma mais ampla, o processo, vê-se tragado por ele e busca sua sobrevivência no interior de um sistema que, como afirma novamente Bourdieu, é absolutamente excludente, mesmo quando “inclui”. 2. o professor se submete e naturaliza essa submissão quando é tragado pela necessidade de sobreviver, quando depende totalmente daquele salário para se sustentar. É claro que isso não coloca ninguém, necessariamente, num processo de naturalização, mas empurra com força. Nesse caso, remeto-me a minha própria experiência, quando era professor de uma faculdade particular me submeti a sete turmas com uma média de trinta alunos, tendo que realizar seis avaliações por turma. Criticava tudo isso, achava um absurdo, mas pouco fiz para mudá-lo ou sabotá-lo.

O que fazer? Estou aqui pensando… pensemos juntos? Leia e reflita…

Desabafo de uma professora de Sociologia

Sou professora de sociologia da rede estadual do Rio de Janeiro. Devido ao baixo salário, sou obrigada a trabalhar também na rede privada. Tenho 22 turmas, metade na escola privada, a outra metade no Estado. Uma média de 40 alunos por turma no Estado e 60 na escola privada. Isso me dá cerca de 1100 alunos, e 1680 avaliações pra corrigir por bimestre. Dessas, 1400 são da rede estadual.

Tenho apenas um tempo de 50 minutos de aula com cada turma, o Estado me obriga a aplicar 4 avaliações: 3 regulares mais a recuperação. Em dia de entrega das avaliações não tem aula, por que não dá tempo em 50 minutos, além disso eu perco um dia de aula para a aplicação do SAERJ Brinco com meus alunos que eles tem mais avaliação do que dia de aula.

A escola me cobra também contabilizar a presença em cada aula e anotar nos diários, PARA CADA UMA DAS 11 TURMAS: conteúdo trabalhado em sala, notas, faltas incluindo os malditos pontinhos de presença (sim, querem que eu faça aqueles pontinhos em cada quadradinho, não só marcar as faltas). Me exigem também lançar as mesmas notas dos alunos que já estão no diário na página da SEEDUC, e entregar numa tirinha para secretaria. Ou seja, além das 1680 provas eu preciso preencher 11 diários e lançar as notas 3 vezes. Tudo isso com 50 minutos de aula. Sem esquecer que temos um prazo pra tudo isso, em torno de 2 semanas.

Também exigem que nós apliquemos o SAERJ, aquela prova que vocês devem ter visto circulando por aí, que subestima a capacidade intelectual dos meus alunos, um desrespeito com eles, além de reproduzir a meritocracia, que é absolutamente contraditória com uma perspectiva de ensino que visa reconhecer as particularidades de cada aluno. Muitos professores, por orientação da SEEDUC, dão pontos para os alunos que fazem o SAERJ, facilitando a sua aprovação, o que garante que com o número de aprovações escolares elevados para que assim o Governo do Estado possa pegar empréstimos com organismos financeiros internacionais. Sabemos que esse dinheiro não chega às escolas, nem passa perto.

Terça-feira é um dia cheio, dou aula para 8 turmas seguidas, pulo de sala em sala. Infelizmente não consigo gravar o nome de todos os meus alunos, muitas vezes não consigo reconhecê-los na rua, o que me entristece muito, porque desumaniza as nossas relações.

Em razão disso tudo, ou eu desobedeço as normas, ou só me preocupo com as burocracias, eu resolvi desobedecer as normas. Não aplico SAERJ, não lanço as notas no sistema da seeduc, marcos as presenças (quando me lembro de fazer), mas não faço os pontinhos, não obedeço severamente os prazos, reduzirei a quantidade de avaliações e me concentrarei nas aulas e debates em sala, mesmo com tão pouco tempo de aula eles são a parte mais importante da minha presença ali.

É um festival de desumanidades… desde as 22 turmas, as 1680 provas, os prazos, os pontinhos e lançamentos de notas diversas vezes, os 1100 alunos que eu “não conheço”, o salário extremamente baixo, o ato de processar professor que faz greve. Como se não bastasse, somos obrigados a trabalhar aos sábados (mesmo sem os alunos) por causa dos dias perdidos com a Copa do Mundo, até apanhar da polícia quando vamos às ruas reclamar por melhores condições de trabalho…

Quando você ouvir falar nos motivos da greve dos profissionais de educação, por favor se lembre disso”.

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TEXTO: MARIETTA BADERNA

Fonte: Midia Informal

Fonte: http://www.cafecomsociologia.com/2014/07/desabafo-de-uma-professora-de-sociologia.html – acesso em 05/07/2014.

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