A educação é um desafio constante, perene, nunca deixa de sê-lo e nunca foi diferente disso, mas por que? Ora, porque a cultura, assim como as sociedades que a abrigam e a vivem, são dinâmicas e a mudança, mais ou menos veloz, mais ou menos voraz, é um dado permanente, logo o dado que permanece e coincide em todas as culturas humanas é? A MUDANÇA.

Se o papel da educação for o de inserir o indivíduo no mundo social e lhe propiciar as condições para viver em grupo, ao mesmo tempo, dando-lhe a capacidade de transformar ou preservar essa realidade e de vê-la sobre os mais diversos ângulos, ela também deve ser dinâmica. Educar é um processo demasiadamente complexo porque deve tornar-se a capacidade de mexer com quem se educa, mexer com os sentimentos, com o conhecimento, enfim com a razão e com o irracional que há em nós. 

Dois artigos de Thomaz Wood Jr. publicados em Carta Capital levantam a questão da “ausência” em nossa sociedade de duas figuras-chaves nesse processo: professores e estudantes. O primeiro no sentido do intelectual relevante, o segundo no sentido da atitude em relação ao conhecimento, não se trata, portanto de um questionamento quantitativo, trata-se, outrossim, de capacidade de influenciar a sociedade e/ou a si mesmo.

O autor, aponta que a irrelevância do professor em nosso sociedade está ligada a forma como o próprio se vê e se posiciona no meio social, bem como está ligada as características de seu campo de atuação. Juntando-se os dois elementos, temos, em resumo, que o professor universitário acaba por tornar-se irrelevante, num duplo processo em que a sociedade o vê assim e ele se faz assim porque se fecha em seu próprio campo produzindo somente para os seus pares.

Quanto ao estudante, Wood Jr. nos remete a célebre diferença entre está no sistema educacional e participar desse sistema. O Brasil aumentou em sobremaneira a “inserção” dos seus jovens em seu sistema educacional, inserção entre aspas porque na verdade temos estatísticas mostrando que o sistema inclui o aluno fisicamente em seu interior, ou seja, o frequentando, mas essa inserção não quer dizer que esse jovem participe desse processo, ou seja, que ele seja um estudante. Conforme diferencia o autor: “o estudante é um ser autônomo, que busca uma nova competência e pretende exercê-la, para o seu benefício e da sociedade. O aluno recebe. O estudante busca”. (Leia os dois artigos aqui e aqui).

Quais as razões apontadas para a proliferação de alunos em consonância com a “extinção” dos estudantes? Aponta-se o “espírito de nosso época” onde o “consumismo e o prazer raso e imediato, que despreza o conhecimento e celebra a ignorância, e que prefere a imagem à substância” prevalecem.

Antes que você espere que eu agora aponta culpados, vou desfocar a questão e trazer a perguntar “que não quer calar”: o que Valeska Popuzuda tem a ver com tudo isso? Acredito que a educação se aproxime muito da filosofia no tocante aos elementos básicos para a pratica de ambas. Estou seguindo os ensinamentos de Jostein Gaarder que em “o Mundo de Sofia” afirma ser a capacidade de admirar-se com as coisas a característica básica para ser um filósofo, sendo a criança o maior de todos os filósofos. O problema que nós, adultos, trabalhamos arduamente para matar o filósofo que existe na criança e fomos muito eficientes nisso: “para com isso menina! Vou te botar de castigo e não te trago mais comigo”, dizemos ao nossos filhos quando esses se expressam de maneira exasperada quando se admiram com algo. É, temos que civilizá-los não é?

Pois bem, cabe a educação devolver ao jovem o “filósofo” morto pelos pais na infância, trabalho difícil, árduo que não pode prescindir de vontade, dedicação e conhecimento. É aqui que entra o professor Antonio Kubitschek e a Valeska Popozuda, essa dupla dinâmica da educação. Dinâmica no sentido da capacidade que os dois tiveram de mexer com a sociedade fazendo-a voltar os seus olhos esbugalhados e preconceituosos para a educação essa semana. o prof. Antonio citou a funkeira como “pensadora contemporânea” em sua prova de filosofia numa escola pública do DF.

Como um professor de filosofia pode creditar a uma funkeira o título de pensadora? Ele só pode ser muito incompetente, seu diploma é apenas um relés papel sem valor pendurado no banheiro de sua casa, pensaram e disseram muitos… A questão é a seguinte: você pode discordar da afirmação e da iniciativa de do professor Antonio, mas não pode negar que ele criou um fato, que ele foi capaz de gerar “admiração”. Lendo a entrevista do professor (leia aqui uma das muitas que ele deu a incrédula mídia) vemos que ele tinha a intenção clara de nos cutucar, de levantar questões e são muitas. A partir desse fato, Antonio nos deu uma série ricas de motes para debater muita coisa: preconceito de classe, a tensão entre cultura erudita e cultura popular, as divisões de classes em nossa sociedade e suas consequências, o sentido do gosto estético, o sentido de ser um pensador, o papel do professor, do aluno, os limites e as potencialidades da escola pública, dentre muitos outros.

Eu me vejo pensando em um em especial: como somos rápidos em julgar e lentos e despreocupados em analisar, refletir. O desprezo ao pensar gera consequências graves em todas as instâncias de nossa sociedade. Cabe ao educador e aos estudantes levantar e debater essas e outras questões, o que me leva a concluir que Antonio e Popozuda deram um show, graças a Deus que não foi de funk (taí o meu preconceito), mas de como a provocação é essencial para o mundo, imagine para a educação.

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