Semana passada o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada – IPEA trouxe à tona uma pesquisa sobre a opinião do brasileiro sobre a violência contra a mulher. Os dados eram assustadores (como disse aos meus alunos, desesperadores), pois apontava que para 65% dos brasileiros as mulheres que se vestem e se comportam de forma “inapropriada” estariam em condição de serem estupradas. Uma lógica que inverte o papel da vítima e do agressor de forma assustadora. Outra dado que chamava a atenção era a consideração de que, traduzindo para o dito popular, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Meus alunos e minha esposa sabem o quanto esses dados mexeram comigo, fiquei muito mal na manhã em que soube da pesquisa, esbravejei aos quatro ventos, pois o meu desespero, não só como marido e pai de duas meninas, mas como cidadão mesmo era de ver o quadro alcançado contornos de irreversível, pois 65% é muuuuuuuuuuuuita (demais, enorme etc.) coisa. Na semana já havia lido uma reportagem sobre a onda dos “encoxadores do transporta público” que já havia me indignado muito e tinha chamado a atenção para o fato de que o problema mais atual era o fato de que os agressores estarem se sentindo, agora, a vontade para revelar seus crimes de abuso sexual publicizando isso na internet.

Pois bem, ontem o IPEA veio a público pedir desculpas, pois errou de maneira gravíssima. Obviamente muitas mulheres e homens machistas devem ter pensando, infelizmente não só, devem ter dito aos seus chegados: “tá vendo, tanto barulho, por isso”. Pois é, mas lhes digo o que é preciso que se afirme MUITAS VEZES, MUITAS VEZES, MUITAS VEZES: o erro do IPEA não desfaz o nosso. Somos uma sociedade extremamente machista e violenta, particularmente para as mulheres. Se os novos dados estiverem certos (tenho todas as razões para duvidar) ainda é um número muito alto (menos expressivo, claro) o de que quase 1/3 da população naturaliza o estupro de mulheres e inverte a lógica da relação entre vítima e agressor.

Essa reportagem da revista Isto é (“atacadas no vagão“) demonstra que a situação da mulher em nosso sociedade está piorando e essa piora está ligada não tanto ao aumento do número de casos de homicídio ou estupro (infelizmente, muitos pesquisadores estimam que as estatísticas não revelam o tamanho do problema, pois as denuncias ainda são muito incipientes), mas sim a banalização dessa violência que tem deixado cada vez mais as pessoas a vontade para declarar seu preconceito, bem como realizar os atos criminosos (o que é, de certa form, pior).

Não percamos isso de vista, a situação da mulher não ficou menos grave, o que muda com a dança dos números, é a sensação de que é mais possível ainda reverter a situação quando temos 30% ao invés de 65%, ou seja, o que mudou é a força para lutar mais contra essa situação, não a situação.

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