Ando preocupado comigo mesmo, pois não estou tão chocado quanto “os brasileiros” com a decisão do Supremo Tribunal Federal – STF em re-julgar alguns dos réus da Ação Penal nº 470, vulgo julgamento do mensalão. Tentando fazer meu auto-diagnóstico, achei algumas pistas:

1. Ao contrário do que se diz, não acho que a possível absolvição de uma parte dos réus desse caso selará para sempre o destino do país. Não que considere que o julgamento desimportante, longe disso, mas creio que a “justiça sendo ou não feita”, ainda temos muito o que fazer, muita pestana para queimar em prol de uma democracia mais justa e participativa. Nesse caso, penso que sendo saciado ou não o desejo “do brasileiro” por justiça, ainda teremos um longo caminho pela frente, ou seja, a luta não foi perdida e nem ganha aqui;

2. Acho assustador e precipitado, e rico para análises, o tom apocalíptico que tomou conta de grandes meios de comunicação como Veja, Estadão e O Globo, como nessa passagem do “jornalista” Arnaldo Jabor: “Amanhã, Celso de Mello estará nos julgando a todos; julgará o país e o próprio Supremo. (…) Se ele votar pelos embargos infringentes, estará acabando com o poder do STF, pois nem nos tribunais inferiores como o STJ há esses embargos“.

3. Fico a me perguntar sobre o quanto a “opinião pública”, o “povo brasileiro” está informado sobre o caso? Refiro-me não somente a questão do caso de corrupção em si, mas quanto ao significado do que ocorreu ontem com a decisão do ministro Celso de Melo, a votação recente em relação aos embargos infringentes.

4. Desconfio quando se afirma que o esse caso em si está para além das regras do direito e fico pensando se o professor Pedro Estevam Serrano não está correto quando afirma que “decisões do STF têm natureza contra-majoritária no sistema, servindo à Constituição e não a maiorias ocasionais”.

5. Por último, fico pensando, cá com meus botões, sobre essa sede de justiça. Será que não há por trás dela o desejo de uma parte em “provar” que a justiça existe de fato nesse país, mas num exercício quixotesco de “pimenta no C dos outros é refresco”? Ou seja, o desejo de propiciar a população um espetáculo de justiça para saciar a sua fome e continuar a tocar o barco, mas agora com muito cuidado com o que se faz e o que se diz?

Desconfiei desde o começo dessa cobertura sobre o caso, desconfio de tudo que dizem Veja, Estadão, Globo, Jabor, do “gigante acordou”, do “Fora FHC”, da “opinião pública” (quem é?)… Tento lê-los, mas busco outras leituras e fontes. Não acredito que “nossa sorte” seja decidida aqui, até porque, que fique claro, os réus não foram absolvidos ontem pelo ministro Celso de Melo, mas sim tiveram a oportunidade de um novo julgamento, alias, essa decisão foi do Supremo e não de um ministro, que apenas desempatou o julgamento com o seu voto.

Posso estar deixando de ver muitas coisas, não descarto isso, mas acredito que meu diagnóstico não seja bem cegueira, mas talvez prudência… quero ler e ver mais e não assumo esse discurso fatalista, pois não por isso o Brasil será pior… nem melhor!

Façamos nós!

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