No dia histórico para o Brasil, 17 de junho de 2013, com as passeatas que levaram milhares as ruas do pais, o programa Roda Viva da Tv Cultura cumpriu a risca o papel de uma televisão que deve servir aos interesses do povo ao entrevistar dois líderes do movimento Passe Livre no calor dos acontecimentos. O mérito fica por aí, pois o apetite dos entrevistadores por enquadrar o movimento era grande, o que tirou um pouco o brilho da entrevista.

A impressão que deu é que havia uma arapuca armada para os líderes do movimento com a presença de um coronel da PM e três jornalistas visivelmente contra os movimentos, neste sentido, foi visível a tentativa de circunscrevê-los, de rotulá-los, de limitá-los, por exemplo, a uma determinada ideologia, de dar uma cara visível ao movimento.

Dois exemplos: quando perguntaram qual a bandeira do movimento e se ele é socialista, no que os líderes disseram que o movimento é de esquerda tendo em vista a sua plataforma baseada na radicalização do processo democrático com participação da população nas decisões em relação, por exemplo, ao transporte público. Outro momento foi a tentativa de personalizar o movimento quando se pediu que eles falassem um pouco deles mesmos, suas histórias de vida, seus gostos pessoais (até mesmo em que eles haviam votado na última eleição) eles se saíram muito bem fugindo a tentação da personalização argumentando que eles são parte de um coletivo e não importa a individualidade deles nesse momento.

Ainda na esteira dessa tentativa de enquadramento do movimento, outro fato que chamou a atenção foi o de responsabilizar os líderes pelos atos de excesso dos manifestantes. O argumento de que ao convocar uma passeata, os convocantes são responsáveis pela ação. Era bastante perceptível que a opinião da bancada, de forma geral, era de que o movimento social, acima de tudo, deve ter controle de duas ações (quase citaram Antoine de Saint-Exupéry, o autor do “Pequeno Príncipe”, com a famosa frase “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”), quanto à ação de todos os participantes e quanto à pauta de reivindicação.

A todo o momento os líderes foram provocados quanto ao sentido e a razão que move o movimento, nesse aspecto eles reiteraram várias vezes que o movimento está centrado na redução da tarifa de transporte público para o patamar anterior de R$ 3,00 e no direito ao passe livre (esta, como luta contínua e posterior à esta da redução).

Nesse caso, embora eu concorde absolutamente com o argumento deles de que uma passagem de R$ 3,20 é alta demais para a população, principalmente se levarmos em conta o custo benefício, ou seja, a qualidade do serviço oferecido por esse valor, não acho que o movimento devesse se restringir a isso, no sentido de que é parte do movimento de massa ser heterogêneo e de que várias bandeiras se unem em torno de questões centrais, centrais, mas não únicas ou única. Lembrei-me da seguinte passagem do artigo do sociólogo Geovani Alves no livro Occupy (2012, Boitempo e Carta Maior) em que este analisa os movimentos que surgiram alhures nos EUA e Europa em 2011:

“os novos movimentos sociais, a princípio, não incorporam utopias grandiosas de emancipação social que exijam clareza político-ideológica. Pelo contrário, eles expressam, em sua diversidade e amplitude de expectativas políticas uma variedade de consciência social crítica capaz de dizer ‘não’ e mover-se contra o status quo. Possuem, em sua consciência irremediável de movimento social, um profundo lastro moral do impulso crítico. Como indignados, eles fazem, mas não o sabem (como diria Marx)”.

Entendo que a estratégia de reiterar essa “bandeira única” faz sentido no contexto em que estavam tentando desacreditar todo o movimento, na medida em que, supostamente, quando a reivindicação é difusa, plural demais, ela perde o sentido, particularmente para quem está de fora. O que me anima nisso tudo, entretanto, é ver que a partir de um mote (o aumento das passagens para um patamar inaceitável) outras pautas vêm à tona, contra a corrupção, quanto à gastança desenfreada com a copa do mundo, contra o desemprego, pelo direito de manifestação, enfim.

O que ficou claro para mim com a entrevista e com a repercussão geral da mídia é que há certo desespero por parte de nossa elite político e econômico em fazer reconhecer a cara do movimento, de identificar seus líderes, de decifrar, pois eles temem que o movimento haja como a esfinge em seu enigma e os devore. A força e, ao mesmo tempo, o maior desafio do movimento está na pluralidade de uma massa que possui razões múltiplas para se mobilizar.

Assistam ao programa e tirem suas conclusões:

Livre

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