Preparando-me para uma palestra que ministrarei no dia 02 de maio no SESC/CE em Fortaleza no programa Café e Filosofia (intitulada “Abaixo a democracia?Reflexões “perigosas” sobre a crise do capitalismo”), estou a me deparar com textos altamente instigantes do filósofo esloveno Slavoj Žižek. A premissa do questionamento à democracia, bem como a ideia de “perigo” que trabalharei em minha palestra estão baseadas nele, particularmente em um interessante texto em que o mesmo analisa os movimentos que tomaram às ruas de Nova Iorque em 2011, os “occupas”: “Occupy Wall Street ou o silêncio violento de um novo começo”, na obra “O ano em que sonhamos perigosamente” (São Paulo: Boitempo, 2012).

Cartaz do movimento Occupy

Mas foram as reflexões provindas das leituras de outros dois textos que me trazem aqui agora: o primeiro é o artigo “A situação é catastrófica, mas não é grave” (Revista Margem Esquerda, n. 16 – Boitempo, 2011) em que Žižek nos remete a um estágio da psique coletiva em que sabemos sobre as catástrofes iminentes, como a ecológica e social, mas não podemos e/ou não conseguimos, de alguma forma, leva-las a sério. Como diz autor, é atitude sintetizada no fato de que sabemos muito bem sobre, mas não acreditamos realmente.

A outra obra é “Vivendo no fim dos tempos” (2012) e sua introdução intitulada “A perversidade espiritual do céu” (pp. 09-16). Nesta breve análise de abertura de seu livro, o autor afirma que é preciso romper com o cinismo que marca o mundo político hodierno. De certa forma, retomando a relação entre essência e aparência em Karl Marx, devemos pensar em como romper hoje com o campo da aparência quando esta alcança um nível de sofisticação que o próprio Marx nunca pensara.

Žižek propõe a capacidade de nos aterrorizarmos, de nos apavorarmos com as coisas e com nós mesmos como uma saída. Sugiro a leitura do texto para melhor entendimento (num futuro próximo pretendo escrever um artigo em que pretendo me apropriar dessa ideia para pensar o processo pedagógico, daí a explorarei melhor). Por enquanto, precisei citá-la para chegar ao ponto-chave deste pequeno artigo: porque se luta e por que se deve lutar sempre?

Quero fazer uma crítica àqueles que pensam que a luta está baseada no possível resultado que ela possa trazer. Pouco se luta ou se luta com muito pouco entusiasmo porque o resultado que se pretende parece por demais distante, o que faz com que a luta perca o sentido. Citando o famoso personagem Spártaco no filme de Stanley Kubrick, Žižek nos remete a outra perspectiva: perguntado sobre se deixaria de lutar ao admitir que a vitória dos escravos não era possível, Spártaco faz uma afirmação que citarei traduzindo ao lado para os termos de uma luta de que participei recentemente (a greve dos professores da Universidade Estadual do Piauí em Oeiras):

“A luta não á apenas uma tentativa pragmática de melhorar as condições dos escravos [a greve não é apenas uma tentativa pragmática de melhorar as condições da UESPI], é uma rebelião baseada em princípios, em nome da liberdade [é uma manifestação baseada em princípios dos quais não se abre mão enquanto educador, em nome da educação de qualidade e de condições adequadas para o ensino]; assim, mesmo que tenham sido vencidos ou mortos, a luta não será em vão [assim, mesmo que tenham tido salários cortados, que tenham sido caluniados e enganados, mesmo que não se tenha tido nenhuma conquista clara, a luta não terá sido em vão] porque estarão afirmando o seu compromisso incondicional com a liberdade [porque estarão afirmando o seu compromisso incondicional com a educação e com a decência], a tentativa, a própria ação, já é um sucesso, uma vez que ilustra a ideia imortal de liberdade [a própria ação de fazer a greve, em si, já é um sucesso, uma vez que ilustra a ideia imortal de compromisso com algo maior, com a educação e com a necessidade de reivindicação]” (p. 16).

Capa do filme Spartacus de Stanley Kubrick

Sinto falta até hoje, de um debate franco, aberto, sem maiores ressentimentos, sobre o que aconteceu, mas o silêncio prevaleceu (não que eu tenha contribuído decisivamente para que isso acontecesse – posso ter feito o contrário até). O fato é que deve-se lutar pelo ideal, pela fidelidade a este e não pelo resultado, que é importante, mas é secundário e deve-se lutar sempre porque os ideais não cessam de ser ameaçados.

P.S. sei que alguns dirão: “isso é muito abstrato, filosófico, quero ver na prática”. Adianto minha resposta: é filosófico mesmo e estou aqui para problematizar e fazer convosco a prática, até o meu limite! E tenho dito!!!

 

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