Somente é possível compreender as contribuições de Karl Marx para a sociologia da educação apropriando-se bem da teoria do trabalho do autor. No bojo dessa teoria, Marx trabalha um dos conceitos mais caros à sociologia contemporânea e até mesmo ao senso-comum: o de alienação.

Falamos muito de alienação cotidianamente, principalmente nos referindo a um sujeito que vive “no mundo da lua” ou que não tem “consciência” das coisas do mundo. Embora esse sentido não possa ser descartado, não é exatamente disso que Marx e Engels tratam quando teorizam sobre a alienação.

Para eles, o trabalho é uma das principais fontes de realização dos potenciais humanos, pois é através dele que humanizamos a natureza, produzindo cultura e mediamos as relações com outros seres humanos. No metabolismo entre trabalho manual e intelectual, o ser humano faz-se a si mesmo. Para Marx (2002, p. 50), o trabalho é “uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana” (grifo nosso).

Capa da obra de C. Wright Mills

Acredito que esse texto do sociólogo norte-americano Wright Mills é um dos mais elucidativos para compreender esse processo de “realização do ser humano”. Trata-se do trecho da obra “Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios”.

Leiam o texto: O ideal do artesanato_Wright Mills

No capitalismo, porém, disseram Marx e Engels, há a separação entre trabalho intelectual e manual, de forma que a classe trabalhadora se vê despropriada dos meios de produção das mercadorias e, consequentemente, de sua própria subsistência. Não lhes restando outra alternativa, os membros dessa classe são obrigados a vender o que lhes resta: sua força de trabalho.

A divisão do trabalho e a separação entre trabalho manual e reflexão intelectual se juntam às relações desiguais de propriedade para se constituírem como fontes primordiais da desigualdade social. Desta maneira, o trabalhador se encontra alienado porque:

  1. Foi expropriado dos meios de produção;
  2. Foi expropriado do saber sobre o processo de produção, que passa a ser parcial na medida em que o trabalhador participa somente de uma das partes do processo, passando a desconhecer o processo de produção como um todo, o que gera a não identificação com o produto do seu trabalho – estranhamento (alienação);
  3. Não pode possuir o que produz, pela ausência de condições financeiras.
As duas músicas que se seguem são duas formas bem interessantes de compreendermos esse processo de alienação. Reflitam sobre a teoria as ouvindo e tirem suas conclusões.

Segue a letra de Capitão de indústria

Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei

Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar

Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça
Que passa e polui o lar
Eu nada sei
Eu nao vejo além disso tudo
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas

Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar

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