Um bom livro é aquele:

  1. Em que nas últimas cinquenta páginas você começa a se entristecer, porque já está acabando.
  2. Em que você quer muito saber o que vai acontecer com os personagens e se sente ansioso pelo desfecho de suas “aventuras”.
  3. Em que mesmo quando você não o lê, pensa em sua trama, em seus personagens que passam a serem quase amigos seus.
  4. A partir do qual você retira aprendizagens para a sua vida.
  5. Que te faz pensar e repensar alguns valores ou verdades que você carrega.
  6. Que te dá ideias. Sejam ideias para a vida cotidiana ou para sua produção acadêmica e/ou profissão.
  7. Que você sabe que lerá novamente.

Escrevo esse texto justamente porque estou triste no momento em que termino um livro fascinante do sociólogo francês Loïc Wacquant – Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe (Rio de Janeiro: Relume Dumará. 2002). A intenção foi estritamente acadêmica, pois como estou estudando o jogador de futebol, a leitura sobre outra profissão esportiva poderia me ajudar bastante, mas o encanto vai muito além das questões teóricas: além, evidentemente, de ter tidos muitas ideias para minha tese, vi-me envolvido de tal forma com os personagens, com as histórias… e olha que não se trata de literatura, embora o autor admita que utilizou-se de “descrição etnográfica, análise sociológica e evocação literária” (p.23). De repente, quando olhei que faltavam quarenta páginas me deu uma grande tristeza.

Não conseguia parar de ler para saber o desfecho da luta de um dos principais “personagens”, fiquei apreensivo, nervoso, neste caso, uma sensação muito gostosa. Diria que não tem preço, ainda mais isolado da família e dos velhos (e bons) amigos aqui no Piauí.

Então resolvi refletir sobre o que faz de um livro um “bom livro”. Recentemente me vi com as mesmas sensações ao ler As intermitências da morte (São Paulo: Companhia das letras, 2005) de José Saramago – para quem não conhece a história, trata-se de uma reflexão literária sobre o que aconteceria se a morte deixasse de cumprir o seu papel primordial, matar. Ficava ansioso para deitar-me em minha rede e deliciar-me com a prosa diferenciada e altamente surpreendente de Saramago. Que fantástico compartilhar dos anseios da morte!

Mas ainda no mesmo movimento de Corpo e alma – livro lido com intenções acadêmicas, mas que deixaram marcas para além das questões teóricas ou conceituais, foi Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social  de Fernando Braga da Costa (São Paulo: Editora Globo, 2004.). Este livro, simplesmente, desobstruiu meu pensamento no meio da produção de minha monografia de graduação quando eu mi vi numa terrível crise criativa. Após sua leitura, minha escrita fluía livremente. Depois, ministrei algumas palestras tendo a temática do livro como mote – trata-se da invisibilidade de homens que se vem atrás de fardas ligadas a posições consideradas subalternas como garis. Muito tocante, tipo de reflexão que TODOS deveríamos fazer.

Outros dois livros que me deram fortemente essa mesma sensação de tempestade de sentimentos foram: Tubarão de Peter Benchley (não encontrei dados da ficha catalográfica) e A insustentável leveza do ser de Milan Kundera (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). O primeiro, li na época do crucial terceiro ano, as beiras do temido vestibular, mas o que era o vestibular diante do grande tubarão? Tirei o vestibular de letra, passei de primeira. Acho que toda a força do tubarão estava ali comigo. O segundo, já li na época de graduação e fiquei fascinadíssimo: reli umas três vezes, alias, já está chegando a hora de lê-lo novamente. O raio X da sensibilidade humana que Kundera realiza nesse livro é um exemplo literário para mim.

Bem, outros muitos livros me marcaram, mas agora gostaria de saber de vocês: o que faz de um livro, um “bom livro”? Quais os seus “bons livros”?

Um abraço a todos!

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