As culturas humanas são extremamente diferentes. Tais diferenças têm várias razões e origens, mas uma das principais diz respeito a cultura como o complexo de formas que os grupos humanos encontram para responder aos desafios que a vida lhes impõe tanto do ponto de vista natural (meio ambiente), quanto do ponto de vista social (relações sociais extra e intra-grupos).

Há também, entretanto, elementos que subjazem a todos os agrupamentos humanos: um dos principais é o nascimento. O início da vida, assim como o seu fim, está para todos os seres vivos, sem distinção alguma. Entretanto, por tratar-se de fenômeno altamente simbolizado pelas culturas humanas, os sentidos atribuídos ao nascimento, a primeira fase da vida são muito diversificados. Estudar as diferentes formas de vivenciar o nascimento por diversas culturas humanas é um exercício muito rico, pois nos possibilita refletir acerca dos elementos significativos de uma cultura e observar como o que é deveras importante para um agrupamento humano não tem importância alguma para outros.

O documentário francês bebês (Título original: bébé(s), Direção Thomas Balmès, Ano 2010) é um ótimo instrumento para se realizar tal reflexão. A ideia simples, mas ao mesmo tempo muito criativa, de acompanhar quatro crianças de diferentes culturas, do nascimento ao primeiro ano de vida, oferece um riquíssimo quadro da diversidade cultural humana. Foram escolhidas uma criança dos Estados Unidos, Namíbia, Japão e Mongólia.

As primeiras diferenças para além da aparência física dos pais e dos próprios bebês está nos recursos que circundam o nascimento.

Há uma latente diferença em relação a maneira como as crianças são socializadas, ou seja, são apresentadas ao seu mundo, a sua cultura, relacionam-se consigo mesmas, com outros e com o ambiente. Vê-se que há diferenças em relação à pedagogia de socialização da criança em cada uma das culturas, mas é possível dividir as quatro em dois grupos: o primeiro conteria as crianças de Namíbia e Mongólia e o segundo conteria as crianças dos Estados Unidos e Japão.

No primeiro grupo, impera o que chamarei de uma pedagogia da prática. Em primeiro lugar, praticamente não há mediação entre pais e filhos. O nascimento na Namíbia e na Mogólia, conforme exemplifica o documentário, é muito rudimentar em se tratando de tecnologia médica. Não se percebe a interferência de outros que não sejam os pais na relação com os filhos.

No segundo grupo, entretanto, do parto aos primeiros passos há sempre presença de especialistas circundando a relação entre pais e filhos. É como se para essas culturas a criação dos filhos exigisse um nível de conhecimento técnico que os impedisse de fazê-lo sozinhos. Chamarei de uma pedagogia técnica.

O documentário me faz pensar que há muita supervisão das atividades de um lado e pouca de outra. Supervisão em dois sentidos: dos pais em relação aquilo que os filhos fazem e dos especialistas em relação aos pais. A impressão é de que as crianças dos Estados Unidos e Japão estão submetidas a uma carga muito maior de supervisão de suas atividades, enquanto o contrário acontece com as crianças da Namíbia e Mongólia o que concede a estes, por sua vez, muito mais autonomia nas descobertas.

A relação das crianças com o ambiente é muito direta com aparente pouca supervisão dos adultos como podemos observar nas cenas em que a criança na Namíbia experimenta o que há no chão sem aparentes restrições ou a cena em que o galo passeia tranquilamente perto da criança na Mongólia.

No fim, a fora qualquer análise que se possa fazer sobre o documentário, ele vale a pena pela beleza e pelo prazer de ver quatro lindas crianças interagindo com o mundo nessa que é, sem dúvidas, uma das fases mais delicadas da vida.

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