Nas últimas semanas assisti e li entrevistas do climatologista Ricardo Augusto Felício da USP sobre o aquecimento global. Estava debatendo com meus alunos do curso de história da UESPI sobre a relação entre a essência e a aparência da realidade social. Para Karl Marx, entre nós e a essência da desta realidade há uma barreira que se impõe a nós: o campo da aparência. De forma bastante simplificada, trata-se das versões sobre a realidade, sobre os fatos. Segundo ainda o filósofo alemão, a ciência é uma forma de conhecimento que deveria nos conduzir ao rompimento com o campo da aparência.

Entretanto, alguns casos parecem demonstrar que a utopia de Marx não se concretiza, na medida em que a ciência muitas vezes não é esse conhecimento engajado, a disposição da emancipação humana. A neutralidade científica é algo bastante questionável. Voltemos, então, para o cientista brasileiro. O debate que ele promove sobre a falta de provas e, portanto, a falácia sobre o aquecimento global é bastante intrigante. Podemos observar que há um grupo de cientistas a defender que a atividade humana intervem de forma bastante direta sobre o clima do planeta. Esta é uma ideia que tem ganho cada vez mais adeptos, principalmente por parte de grandes corporações e governos, bem como dos próprios cidadãos.

O que me atrai nessa ideia é que ela nos chama a atenção para a nossa responsabilidade. Creio que nossa sociedade tem carecido muito desta perspectiva. Vivemos um momento em que aprendemos a lutar por nossos direitos e isso é um grande avanço. De forma mundial as populações oprimidas tem lutado pelos seus direitos – vide Primavera árabe, por exemplo. Entretanto, as pessoas têm dificuldades de identificar, reconhecer e praticar suas responsabilidades enquanto cidadãos nos mais diferentes níveis – desde os papeis sociais exercidos no contexto microcósmico como o de pai, esposo, filho, como no macrocosmo como eleitor, funcionário de uma empresa etc.

Ricardo Augusto Felício, conforme você pode ver nessa entrevista que ele concedeu ao Jô Soares, afirma que fenômenos como o aquecimento global e a destruição da camada de ozônio carecem de prova, são ideias que ainda estão na ordem das hipóteses. Alem disso, há interesses escusos por trás da defesa dessas hipóteses.

A questão é: e não há interesses escusos por trás do desmentimento dessas hipóteses também? O que se percebe é que há pelo menos quatro grupos aí: um formado por aqueles que consideram não haver aquecimento global e são, digamos, independentes. O segundo é formado por aqueles que também desacreditam o aquecimento global, mas estão vinculados a empresas e governos que tem interesses diretos sobre essa ideia, como as empresas altamente poluidoras de países como China, Índia, Brasil e EUA. Seguindo o mesmo princípio, um terceiro grupo seria formado por cientistas que acreditam ser o aquecimento global um perigo eminente, mas guardam certo nível de independência e o último também acredita nisso, mas está atrelado a empresas e governos que ganhariam comercialmente com essa ideia por, por exemplo, fabricarem equipamentos que iriam substituir os tidos como poluentes.

Não tenho conhecimentos específicos para debater com o sr. Ricardo Felício, mas tenho criticidade suficiente para dizer que tenho dificuldade em conceber que a ação humana pouco ou quase nada intervem no ciclo da natureza. Além disso, volto a afirmar que é bastante necessário e premente que passemos a levar em consideração nossa responsabilidade sobre o planeta e a comunidade humana. Creio ser necessário que revoquemos essa apartação entre humanidade e planeta/natureza.

Recomendo, para elucidar melhor tal debate, que assistam a entrevista de Ricardo Felício e o documentário “a era da estupidez”. Boas reflexões!

 

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