Nos últimos dias o Centro Cultura Dragão do Mar de Arte e Cultura tem estado na pauta. Gostaria muito que fosse pelas novas atrações culturais, novas exposições, novos espetáculos, por novos projetos em que a comunidade artística local, regional, globel estivesse sendo convidada a praticar aquele espaço, como diria Michel de Certeau, mas não é. O Dragão do Mar está morrendo aos poucos.
Os últimos acontecimentos: a praça verde já não o é mais, pois a grama morreu e a parceria com o Banco Unibanco/Itaú no cinema acabou. Esses acontecimentos só vêm se somar a falta de segurança no espaço, a ausência de protagonismo para aquilo que se propõe em sua existência, no mau uso ou não uso do imenso espaço etc.
Acredito que, como afirma o sociólogo Júlio Lira no artigo que disponibilizo abaixo publicado em O Povo deste domingo, o problema principal gire em torno da falta de planejamento, falta de identidade e falta de capacidade de escutar toda a comunidade: do entorno do Dragão, dos artistas locais dos artistas de fora, dos frequentadores do espaço, dos não-frequentadores, enfim dos moradores de Fortaleza e até dos turistas. Falta diálogo, falta capacidade administrativa e competência na área artística, falta pesquisa, falta atenção as pequenas coisas como molhar a grama. É uma pena para nossas cidade já tão desprovidas de espaços para o contato do público com a cultura e exposição dos artistas locais.

Um centro isolado da cidade
Para o sociólogo Júlio Lira, o equívoco maior do Dragão do Mar é o isolamento social do equipamento, não permitindo, assim, que os problemas e as demandas sejam dialogados e trabalhados

Nestes dias circularam pelas redes sociais expressões de mal estar pela situação de abandono do Dragão do Mar, entre elas, uma foto que, tirada de um patamar mais elevado, mostrava metade do seu único gramado, o da Praça Verde, como um improvável mapa, com grandes manchas de terra crescendo em uma superfície de verde quase inexistente. Mesmo a grama sobrevivente parecia pedir cuidados.

Não estamos falando de graves questões estruturais, mas de problemas cotidianos de zeladoria. Podemos ter certeza de que o problema também não é o dinheiro, mesmo que os valores repassados pelo Estado não considerem os aumentos de custos. A água vem de um poço; nitrato, adubo, mudas ou manta de grama custam pouco; mão de obra já é incluída na dotação orçamentária. Não, a questão não é dinheiro.

A resposta aparece por exclusão: os gestores não escutam um jardineiro. Expor essa incompetência para o diálogo pode parecer duro, mas não sou eu quem diz, é a grama. Ou melhor, o desgramado. Note-se que essa surdez da gestão parece ser seletiva, tornando mais grave à medida que se sobe na hierarquia do Estado: não foi o Cid Gomes que disse que está tudo transcorrendo bem no Dragão do Mar?

Não tendo sido concebido dentro de uma política pública que o relacione geopoliticamente com uma ampla rede de equipamentos de menor porte como casas e pontos de cultura, o Dragão deveria procurar se contextualizar e interagir com produtores e ativistas culturais, associações profissionais, artistas, movimentos, empresas, frequentadores. Mais do que procurar apoio para seus projetos, deveria estar afinado com a busca de uma inteligência coletiva. Entretanto, observa-se que não existem aberturas institucionais para o trabalho colaborativo. A vida cultural do Estado está passando por longe, salvas exceções tópicas que apenas confirmam a regra. As portas de acesso entre o Dragão e a Biblioteca Pública foram fechadas, qualquer integração de projetos inexiste, mesmo porque vários que existiam ali foram encerrados e a Biblioteca sucateada. Pelas calçadas do Dragão, ressoam apenas bares responsáveis pelo boom imobiliário que varreu quase todos os ateliês de artistas das redondezas e ainda expulsa os poucos remanescentes. Bares cujos proprietários afirmam nunca terem sido chamados pela atual gestão para uma conversa.

Como intervenção urbana, o Dragão do Mar foi mais um desenho nascido das pranchetas, sem diálogo com o entorno ou com a sociedade e que, a posteriori, precisa consertar os amadorismos, remediar a ausência de um pensamento urbanístico ou de políticas públicas culturais.

O problema maior não é ausência de nenhum tipo de salvaguarda urbana para moradores e artistas. O problema maior não são erros que se remediam com reformas físicas, como um anfiteatro sem banheiro e no qual os artistas têm de passar para o camarim pelo palco, ou um museu sem espaço para reserva técnica, ou um cinema improvisado como teatro, ou uma sala de dança sem pé direito adequado. Problema maior não são os de gestão como a falta de segurança no equipamento que já expôs uma mulher ao estupro dentro do teatro. Problema maior não é o acirrado conflito interno entre diretorias. Problema maior não é a ocupação de vagas profissionais por indicados políticos sem qualificação profissional consistente na área cultural. Problema maior não é o lento marca-passo dado pela Secretaria de Cultura. Problema maior é o isolamento social – desde a gênese na prancheta, repita-se – que não permite que todos os problemas, dos mais simples aos mais graves, sejam dialogados e trabalhados. Problema maior é que o Dragão do Mar não pode ser uma caixa amplificadora da cultura cearense, pois está distanciado da sociedade civil.

Governar vai muito além de distribuir cargos como benesses.

Estivesse o governo próximo saberia que os cineclubes no Ceará nunca estiveram mais fortes e que a desistência da Unibanco em dar seguimento aos cinemas daqui poderia dar lugar a uma ocupação consorciada que não usaria o espaço apenas para projetar filmes de arte, mas para debates cinematográficos ao jeito antigo, para apresentar filmes raros, para expor a produção local, para refletir todo o dinamismo da cena local. O segundo cinema poderia continuar no padrão anterior. Mas para pensar políticas culturais, para encontrar soluções capazes de afastar propostas estapafúrdias e elevar o papel social do Dragão do Mar é preciso ser capaz de escutar. E quem não sabe escutar um jardineiro, mestre da vida, saberá escutar quem?

Júlio Lira é sociólogo e mestrando em Comunicação

Fonte: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/04/14/noticiasjornalvidaearte,2820861/um-centro-isolado-da-cidade.shtml – acesso em 15/04/2012.

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