Seleção PIBEU

Car@s alun@s,

venho através deste comunicar-lhes sobre seleção de bolsistas para o programa de extensão “Ciclo de oficinas para professores de Sociologia do ensino médio de Parnaíba”. Trata-se de um programa de extensão, ou seja, um projeto sem data para encerrar, embora o vínculo de bolsista seja renovado anualmente.

Objetivos: a) oferecer aos professores de ensino médio de sociologia da região do município de Parnaíba capacitação metodológica e teórica; b) Oferecer aos estudantes do curso de ciências sociais da UESPI oportunidade de desenvolver as capacidades necessárias ao exercício futuro da docência; c) oportunizar tanto aos estudantes de ciências sociais da UESPI quanto aos professores do ensino médio de sociologia um espaço de diálogo e troca de experiências sobre o ensino da disciplina; d) desenvolver metodologicamente o ensino de sociologia; e) incentivar a participação de estudantes e professores de sociologia no grupo de estudos que terá reuniões semanais na UESPI.

Esse programa de extensão é parte de um projeto maior que visa formar um laboratório de ensino e pesquisa sobre o ensino médio e está ligado a existência de um grupo de estudos que terá reuniões semanais e será aberto a participantes que não sejam selecionados agora.

Para esse projeto estou selecionando oito participantes, sendo dois bolsistas remunerados e seis voluntários, todos, obviamente, com direito a certificado. Da seleção, os dois primeiros serão os selecionados para bolsistas. A seleção ocorrerá através de uma prova escrita não consultada a ocorrer no dia 24/06 as 15h numa sala a ser escolhida. Comunicarei sobre a sala no dia anterior através do e-mail, assim é imprescidível que você me mande um e-mail com seu nome completo e bloco com o título “seleção PIBEU” para rm_rogerio@yahoo.com.br. Serão aceitas inscrições por e-mail até o dia 23/06 as 23:59h.

A prova será sobre os seguintes textos que se seguem:

Sociologia da educação

Car@s alun@s,

nesse post irei lhes disponibilizar a maioria dos textos que leremos nesta disciplina.

Mas nosso ponto de início deve ser sempre nosso plano de curso: Filosofia (Plano de curso_Sociologia da educação_Filosofia) e Letras Inglês (Plano de curso_Sociologia da educação_Letras).

Em nossa segunda aula, trabalharemos com os seguintes textos Onacirema, Carta de um antropólogo perdido (Onacirema e Carta de um antropólogo perdido), O sucesso não depende apenas de você (O sucesso não depende apenas de você. Por uma visão sistêmica da realidade). Para a turma de filosofia, acrescento esse texto Filosofia no Ensino Médio.

Nosso próximo texto é a introdução do livro “Um toque de clássicos” (embora a gente vá trabalhar somente com a introdução, você fará um bom investimento se imprimir esse livro todo como leitura auxiliar, é muito bom). Desta aula, baixem os slides: Surgimento da Sociologia_Prof. Radamés Rogério e INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA_Aula I_Prof. Radamés Rogério.

Nossa próxima leitura é sobre socialização, um conceito importante tanto para a sociologia, quanto para a educação. (Socialização_como ser um membro da sociedad e_Peter Berger e Brigitte Berger).

Passada a limpo essa temática, iremos iniciar o estudo da educação à luz de cinco teóricos da sociologia, a saber, os três pais fundadores da sociologia, Marx, Durkheim e Weber e os contemporâneos Pierre Bourdieu e Bernard Lahire. Os dois primeiros e Bourdieu, nos estudaremos a partir do excelente livro de Alberto Tosi Rodrigues, Sociologia da educação. Portanto, leremos os capítulos II, III e a primeira parte do V. Sobre Max Weber, leremos um artigo de minha autoria “Qual o sentido da educação? Leituras clássicas na construção do pensamento sociológico: Karl Marx, Max Weber, Florestan Fernandes e Simon Schwartzman”.

De Pierre Bourdieu, leremos ainda “Sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições”. De Bernard Lahire, iremos ler capítulos (ainda escolherei) do livro “Sucesso escolar nos meios populares: razões do improvável”.

SUcesso

 

 

Prática em métodos quantitativos

Car@s alun@s,

sejam bem-vind@s à esta disciplina. Temos diante de nós um grande desafio, pois conforme veremos nos textos da disciplina, pensar o método é pensar a ciência ou, de outra forma, o caráter de cientificidade dessa forma de conhecimento que buscamos desenvolver na universidade.

Os métodos quantitativos são, para a maioria dos estudantes de ciências humanas em geral, uma espécie de medusa a qual ficaremos petrificados aos nos defrontarmos com eles, um bicho de sete cabeças. Minha intenção é mostrar, através da prática, o quanto esses métodos podem ser relevantes para nossas pesquisas, assim, tentarei  fazer com que vocês ocupem os mais diferentes papéis no âmbito da pesquisa, a saber, respondentes e aplicadores de questionários, elaboradores de questionários, tabuladores de dados e analistas destes. Nesse sentido, compartilho com vocês o plano de curso da disciplina (Plano de curso_Práticas de métodos quantitativos_CS).

Nossa segunda leitura trará uma reflexão sobre a história da estatística e de seus usos, bem como um questionamento sobre o ser estatuto de conhecimento “verdadeiro”, assim iremos ler trechos da tese de doutorado em educação (USP) de Natália de Lacerda Gil (2007), intitulada “A dimensão da educação nacional: um estudo sócio-histórico sobre as estatísticas oficiais da escola brasileira” (baixe aqui). Desta tese, iremos ler as páginas (p. 14-25/ 42-45/ 277-313).

Feita a reflexão sobre os estatutos científicos da estatística bem como sobre sua história, passaremos ao exame do uso prático dos métodos quantitativos nas ciências sociais no Brasil. Faremos isso debatendo o artigo de Pedro Neiva “Revisitando o calcanhar de Aquiles metodológico das ciências sociais no Brasil” (aqui).

Nosso próximo passo será a análise do interessantíssimo artigo de Alana Moraes intitulado “A vida das estatísticas, a vida das mulheres: sobre as possibilidades de produzir dados afetados e o caso da pesquisa do IPEA” (Aqui). Neste, a autora questiona se os dados obtidos sem discriminar os gêneros têm de fato capacidade de revelar aspectos da realidade. Neste sentido, a autora analisa a pesquisa do IPEA de 2014, “A tolerância social à violência contra as mulheres” levando-nos a relevantes questionamentos dos dados e conclusões apresentados pela pesquisa.

Para pensar que usos práticos podem ter as estatísticas e quais as implicações dos métodos quantitativos, iremos assistir ao filme “O homem que mudou o jogo” (original: Moneyball, direção: Bennet Miller, 2011) que conta a história de Billy Beane, gerente geral do time de basebol do Oakland Athletics. Moneyball se foca nas tentativas de Beane de criar um time competitivo para a temporada de 2002 de Oakland, apesar da situação financeira desfavorável da equipe, usando uma sofisticada análise estatística dos jogadores.

Passaremos depois ao exame das possibilidades de análise para os dados estatísticos focando numa parte importante da sociologia, a saber, a sociologia da religião. Leremos os artigos “Censo 2010: antigas questões e novos desafios interpretativos à Sociologia da Religião” e “Bye Bye, Brasil”: o declínio das religiões tradicionais no Censo 2000“.

Feitas essas leituras reflexões e debates, passaremos a parte prática da disciplina que consiste numa pesquisa sobre os perfis sócio-econômicos de estudantes ingressantes dos cursos de Ciências Sociais e de Direito da UESPI Parnaíba. Nessa pesquisa iremos avaliar a tese de que os cursos de licenciatura tendem a selecionar alunos de um nível sócio-econômico mais baixo dos que cursos mais prestigiados como Direito. Essa premissa está baseada em dois artigos que iremos ler antes de partir para a aplicação dos questionários. O primeiro é “Origens sociais dos futuros educadores: a democratização desigual da educação superior” de autoria de Janete Palazzo e Candido Alberto Gomes, e o segundo é “A divisão interna do campo universitário: uma tentativa de classificação” de Maria da Graça Jacintho Setton.

A disciplina se encerra com a apresentação de seminários das seis equipes que formaremos e aqui seguem os relatórios que as equipes analisarão para realizar os trabalhos, sua equipe ficará com um deles para analisar (farei sorteio em sala). São eles:

  • Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004-2014 (aqui);
  • Violência doméstica contra a mulher (aqui);
  • Hábitos de informação e formação de opinião da população brasileira (aqui).

Desafios metodológicos e epistemológicos da sociologia no ensino médio

Caros(as) alunos(as),

agradeço a vocês por terem estado comigo nesse minicurso, espero ter contribuído para a formação de vocês. Seguem aqui os livros, documentos e slides falados e exibidos na aula.

Começamos com o Guia do livro didático de Sociologia, trata-se de um documento muito importante porque traz parâmetros importantes sobre o conteúdo da disciplina de sociologia. Versão 2012 e Versão 2015.

É essencial ler e estudar atentamente esses dois documentos que se seguem: trata-se do Parâmetros Curriculares Nacionais, Ensino Médio, Ciências Humanas e suas TecnologiasOrientações Curriculares para o Ensino Médio – Ciências Humanas e suas Tecnologias. É importante conhecer esses parâmetros para praticar a docência em sociologia no ensino médio, assim como para pensar e pesquisar a sociologia.

Algumas revistas de sociologia realizaram ao longo dos últimos anos dossiês sobre o ensino de sociologia no ensino médio nos proporcionando artigos importantes sobre a temática que devem ser lidos e estudados. Revista Mediações – Dossiê Ensino de Sociologia; Revista Cronos – UFRN – v. 8, n. 2 (2007) – Dossiê Ensino da sociologia do Brasil; Revista de Ciências Sociais – UFC – Dossiê Sociologia no ensino médio.

Há livros disponíveis em pdf na internet sobre nosso tema. Inclusive um dos livros mais citados em artigos que foi esgotado e, por isso, disponibilizado em pdf, a saber, HANDFAS, Anita; OLIVEIRA, Luiz Fernandes de (Org.). A Sociologia vai à Escola: História, Ensino e Docência; Livro Sociologia – conhecimento e ensino – Fernando Ponte de Souza (org.); Livro Sociologia na sala de aula – Fagner Carniel e Samara Feitosa (orgs.); Sociologia: ensino médio / Coordenação Amaury César Moraes. – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010. 304 p. : il. (Coleção Explorando o Ensino ; v. 15).

Há uma série de dissertações sobre nosso tema que também são importantes fontes de estudo e pesquisa para nós. Segue uma lista com a maioria destas elaborada pelo Laboratório de Ensino de Sociologia Florestan Fernandes da UFRJ (alias, aproveite e conheça a riqueza de material disponibilizado pelo LABES): Dissertações sobre sociologia no ensino médio.

O único estudo que encontrei até hoje sobre o ensino de sociologia na educação básica sobre o Piauí é a dissertação de Maria das Dôres de Souza, professora da UFPI, intitulada “Identidade e docência: o saber-fazer do professor de sociologia das escolas públicas estaduais de Picos-Piauí”, disponível aqui.

Por último, disponibilizo os slides exibidos nas duas sessões do minicurso. Minicurso Ensino de sociologia no ensino médio_Parte I_Parnaíba e Minicurso Ensino de sociologia no ensino médio_Parte II_Parnaíba.

Bom estudo!

Sociologia no ensino médio

Caros(as) alunos(as),

agradeço a vocês por terem estado comigo nesse minicurso, espero ter contribuído para a formação de vocês. Seguem aqui os livros, documentos e slides falados e exibidos na aula.

Começamos com o Guia do livro didático de Sociologia, trata-se de um documento muito importante porque traz parâmetros importantes sobre o conteúdo da disciplina de sociologia. Versão 2012 e Versão 2015.

É essencial ler e estudar atentamente esses dois documentos que se seguem: trata-se do Parâmetros Curriculares Nacionais, Ensino Médio, Ciências Humanas e suas TecnologiasOrientações Curriculares para o Ensino Médio – Ciências Humanas e suas Tecnologias. É importante conhecer esses parâmetros para praticar a docência em sociologia no ensino médio, assim como para pensar e pesquisar a sociologia.

Algumas revistas de sociologia realizaram ao longo dos últimos anos dossiês sobre o ensino de sociologia no ensino médio nos proporcionando artigos importantes sobre a temática que devem ser lidos e estudados. Revista Mediações – Dossiê Ensino de Sociologia; Revista Cronos – UFRN – v. 8, n. 2 (2007) – Dossiê Ensino da sociologia do Brasil; Revista de Ciências Sociais – UFC – Dossiê Sociologia no ensino médio.

Há livros disponíveis em pdf na internet sobre nosso tema. Inclusive um dos livros mais citados em artigos que foi esgotado e, por isso, disponibilizado em pdf, a saber, HANDFAS, Anita; OLIVEIRA, Luiz Fernandes de (Org.). A Sociologia vai à Escola: História, Ensino e Docência; Livro Sociologia – conhecimento e ensino – Fernando Ponte de Souza (org.); Livro Sociologia na sala de aula – Fagner Carniel e Samara Feitosa (orgs.); Sociologia: ensino médio / Coordenação Amaury César Moraes. – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010. 304 p. : il. (Coleção Explorando o Ensino ; v. 15).

Há uma série de dissertações sobre nosso tema que também são importantes fontes de estudo e pesquisa para nós. Segue uma lista com a maioria destas elaborada pelo Laboratório de Ensino de Sociologia Florestan Fernandes da UFRJ (alias, aproveite e conheça a riqueza de material disponibilizado pelo LABES): Dissertações sobre sociologia no ensino médio.

Por último, disponibilizo os slides exibidos nas duas sessões do minicurso. Parte I e Parte II.

Bom estudo!

Estágio I

Caros alunos,

iniciamos mais um desafio, a disciplina de Estágio em sua primeira etapa. Este é seu plano de curso (Plano de curso_CS_Estágio I). Quero aqui disponibilizar artigos sobre as questões que dizem respeito ao ensino de sociologia no ensino médio. Há muito o que ser discutido, muito mesmo, portanto, haja leitura. Farei algumas indicações:

O sociólogo francês Bernard Lahire se pergunta, de forma provocativa, para que serve a sociologia nesse interessante e instigante artigo: Para que serve a sociologia_Bernard Lahire

Esta entrevista do sociólogo francês François Dubet foi para mim um soco no estômago, pois ele trata de forma muito crua as dificuldades do professor no ensino médio, mas recuperado do soco, é preciso de levantar e se preparar para esta experiência difícil, daí a importância do artigo: Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor.

Faremos uma discussão sobre os saberes docentes e sua relação com o ensino, daí a importância da famosa obra Pedagogia da autonomia de Paulo Freire: Pedagogia da Autonomia_Paulo Freire.

Um dos principais desafios do ensino de sociologia no ensino médio é a passagem de um conhecimento acadêmico/científico para um conhecimento palatável para o público secundarista, é aí que entra a questão da Transposição didática. Sobre essa temática indico: Transposição didática em ChevallardLa transposicion didactica_ChevallardO entorno da transposição didática da disciplina de sociologia.

É bastante importante que o professor de sociologia conheça os Parâmetros Curriculares Nacionais, assim como as Orientações Curriculares do Ensino Médio: Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio_Ciências Humanas e suas TecnologiasOrientações Curriculares para o Ensino Médio_Ciências Humanas e suas Tecnologias.

O material didático é um dos pontos centrais do trabalho do professor, nesse sentido é essencial também que o professor conheça o livro didático de sociologia, os critérios de escolha e os parâmetros estão aqui nesse documento: Guia de livros didáticos PNLD 2012_SOCIOLOGIA. Esse artigo faz uma análise interessante dos livros didáticos de sociologia: Como anda a mediação didática.

Outro ponto muito importante é conhecermos a realidade local do ensino de sociologia. Aqui está a matriz curricular do estado nesta disciplina: Piauí_Matrizes Disciplinares do Ensino Médio. Apresento ainda uma dissertação de mestrado que analisou a realidade dos professores de sociologia de Picos: O saber_fazer do professor de sociologia das escolas públicas estaduais de Picos. Esse artigo é sobre os referenciais curriculares do estado: Referenciais curriculares do ensino médio da rede estadual do Piauí.

Indico esse roteiro de atividades elaborado por um laboratório de estudos da USP, muito interessante, roteiro que tomaremos como modelo para nós: Roteiro de atividades didáticas_Consumo_Laboratório da USP.

Por último, um dos dois livros didáticos de sociologia aprovados no PNLD de 2012: Sociologia para jovens para o séc. XXI_Livro didático.

Essas são algumas dentre muitas leituras que deveremos fazer na construção de nossa prática de professores de sociologia no ensino médio, o desafio é grande, portanto a preparação deve corresponder ao seu tamanho. Vamos juntos.

Cine Clube Kapital – Sessão II – Dois dias, uma noite

A segunda sessão do Cine Clube Kapital que ocorrerá hoje dia 07 de abril de 2015 trará o filme “Dois dias, uma noite” (baixe aqui). O belo filme escrito e dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, nos traz diversas interpelações, minha leitura, entretanto, focou em duas questões: a precarização do mundo do trabalho e suas consequências para a desarticulação da solidariedade de classe e atuação sindical.

Capa do filme Dois dias, uma noite

Acredito que esse debate deve começar pela questão do trabalho: o que ele representa para o homem, no sentido de espécie humana, no sentido de tornar-nos humanos, mais humanos? Parto da concepção marxiana de que o trabalho é fonte de realização humana, no sentido de ser atividade através da qual produzimos o mundo humano, o mundo da cultura. Recomendo a leitura do livro de Engels “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem” (baixe aqui).

O capitalismo, entretanto, desconstrói o trabalho como atividade de realização ao expropriar o trabalhador do saber sobre a produção e dos meios e instrumentos desta mesma, fazendo com que o trabalho e o seu fruto tornem-se em algo estranho produzindo-se assim a alienação. A alienação, por sua vez, é responsável pela criação da “falsa consciência”, que não permiti que o trabalhador perceba injustiça e exploração em sua relação com o capital, o que, consequentemente, dificulta a perspectiva de se pensar enquanto um coletivo, enquanto pertencente a uma classe.

Um modelo importante de consolidação do modo de produção capitalista é o fordismo, daí que é preciso analisar suas características que se elevou a alienação do trabalhador a um ponto extremo com a especialização e repetição, contribuiu para um processo de acentuação da proletarização da produção. O momento em que vivemos agora, o pós-fordismo caracterizado pela flexibilização da produção traz muitos perigos a classe trabalhadora com um alto nível de rotatividade e flexibilização das leis trabalhistas, tendo como um dos marcos atuais, particularmente no Brasil, a terceirização.

Recomendo duas leituras para a compreensão dessas questões: o excelente livro do sociólogo da UNICAMP Ricardo Antunes “Adeus ao trabalho?” (baixe aqui). E a entrevista do sociólogo Ruy Braga ao portal do PSTU sobre terceirização disponível em http://www.pstu.org.br/node/21375.

Ainda sobre essa importante questão da terceirização, ha uma campanha contra o Projeto de Lei 4330, assista-o:

Para um aprofundamento maior da questão, indico o livro do mesmo Ruy Braga chamado “A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista”.

Por último, disponibilizo o slide que usarei na palestra: Cine clube kapital_Sessão II_Dois dias, uma noite_Prof. Radamés

Boas reflexões!

Formas diferentes de socialização

A socialização é um dado humano, é o processo através dos quais somos inseridos no meio social, inserção esta que é absolutamente necessária tendo em vista que não nascemos pertencentes à sociedade, é preciso obter o “passe” e este é obtido através da aprendizagem das normas, valores, noções do certo e do errado que a sociedade nos impõe particularmente através do nosso microcosmo, por sua vez, altamente influenciado e determinado pelo macrocosmo.

É considerando tudo isso que devemos analisar a cultura alheia e lançar um olhar capaz de alteridade. Convido você a olhar dessa forma o tipo de socialização conhecido pela alcunha as mães, parte das mães asiáticas, conhecidas como “mães tigres”. Assista ao documentário britânico mães tigres que se segue e reflita sobre a diversidade cultural humana e sobre porque as coisas são como são.

Essa reportagem do jornal da Globo traz uma reflexão e a repercussão do livro lançado nos EUA que destaca o tipo mãe tigre.

Por último, destaco uma reportagem sobre o estilo mãe tigre e seus reflexos nos resultado escolares, recomendo, entretanto, que você assista primeiro ao documentário e somente depois de tirar suas conclusões leia esta reportagem, ok? Boa leitura e reflexões!

Método de educação conhecido como “mãe-tigre” não cria necessariamente crianças prodígio, diz estudo

Educar os filhos de forma rígida e autoritária pode torná-los mais depressivos – e não garante nem que eles terão um melhor desempenho acadêmico

Por Marcela Bourroul

Desde que a sino-americana Amy Chua lançou um livro sobre seu método de educação, conhecido como o jeito “mãe-tigre” de ser, mães e psicólogos discutem sobre a eficácia desse tipo de conduta. A rigidez das regras impostas aos filhos e a crítica constante ao seu desempenho são as características mais marcantes da mãe-tigre. Não elogiar o filho em público, considerar 9 uma nota ruim e escolher todas as atividades que a criança deve fazer são alguns exemplos que a autora defende e colocou em prática na criação de suas duas filhas.

Agora, quase dois anos depois da publicação do livro Battle hymn of the tiger mother (Hino de batalha de uma mãe chinesa), uma das primeiras pesquisas a medir o quanto esse método contribui para a felicidade e o desempenho acadêmico das crianças é publicada na revista científica Asian American Journal of Physhology. E os resultados mostram que tanta rigidez pode não fazer bem para a criança – ela não necessariamente melhora suas notas e ainda pode se tornar um jovem mais deprimido.

Para chegar a essa conclusão, a pesquisadora Su Yeong Kim, da Universidade do Texas, reuniu dados de 444 famílias moradoras dos Estados Unidos, nas quais pelo menos um dos pais era de origem asiática. O objetivo do estudo era entender qual o perfil de educação dessas famílias e que efeitos isso tinha no perfil dos filhos adolescentes.

As famílias foram acompanhadas durante oito anos, e de tempos em tempos precisavam responder a um questionário sobre seu estilo de criar os filhos. Além disso, tinham que informar alguns dados sobre o desenvolvimento dos filhos, como a média escolar. Apesar de o estudo ter começado antes do lançamento do livro de Amy, no momento de analisar os dados a equipe de pesquisadores dividiu os pais em quatro tipos principais: apoiador, tigre, autoritário e descontraído.

A primeira conclusão que surpreendeu os responsáveis pelo estudo foi que o tipo tigre não era o mais comum entre as famílias. A maior parte dos pais adotava o estilo apoiador, também conhecido como democrático, que foi associado com os melhores índices de desenvolvimento das crianças. O jeito tigre, por outro lado, foi relacionado com uma média escolar mais baixa e menores níveis de escolaridade dos filhos, bem como um menor senso de obrigação familiar, mais sintomas depressivos e sentimento de alienação. Ou seja, o estudo contraria o senso comum ao apontar que os filhos de pais-tigre não têm necessariamente um melhor desempenho acadêmico ou são mais felizes.

Segundo a psicóloga Ana Lúcia Castello, esses resultados comprovam o que já se sabia. “Os pais-tigre são extremamente autoritários, e quando existe autoritarismo as crianças crescem inseguras. No fundo, durante a fase de desenvolvimento emocional, elas ficam dependentes das opiniões dos pais – seja porque querem ou porque precisam agradá-los”, explica. Nesse ambiente, a criança também acaba tendo dificuldade de desenvolver sua autonomia.

Outro problema que os filhos de pais muito autoritários ou controladores enfrentam é a frustração. Isso porque esse tipo de educação nem sempre dá espaço para a criança ser o que quer – e não raramente ela é forçada a praticar algo de que não gosta ou para a qual não tem vocação. “O autoritarismo é demodê. Estamos no século 21, tentando partilhar uma educação mais democrática. Claro que muita permissividade também é um problema, mas é possível ensinar limites em vez de impor”, afirma Ana Lúcia.

No entanto, antes de jogar o livro de Amy na fogueira (e com ele todos os seus conselhos), também é necessário levar em conta as diferenças culturais entre orientais e ocidentais. A própria autora apontou essa questão em seu “manual”: “Pais ocidentais tentam respeitar a individualidade das crianças, encorajando-as a buscar suas paixões verdadeiras, apoiando suas escolhas e proporcionando reforços positivos e um ambiente estimulante. Em contraste, os chineses acreditam que a melhor forma de proteger seus filhos é preparando-os para o futuro, fazendo-os ver do que são capazes e armando-os com habilidades, hábitos de trabalho e confiança interna que ninguém jamais poderá tirar.” E você, o que acha sobre esse assunto?

5 coisas de Amy Chua que podem fazer você refletir
– Acredite no potencial do seu filho: Não desista quando ele fracassar na primeira tentativa. Para ela, os pais ocidentais cobram pouco dos filhos por medo de abalar sua autoestima e porque, secretamente, não conseguem lidar com o sentimento de decepção quando seus filhos não correspondem às suas expectativas.

– Se envolva mais nas atividades dele: A mãe tigre se dedica quase integralmente aos filhos, acompanhando todas as suas atividades e o desempenho em cada uma delas.

– Tenha convicções quanto à educação do seu filho: Apesar de ter feito uma escolha de modelo parental polêmica, Amy Chua é verdadeira e acredita plenamente no que está fazendo. Ela está segura, e, portanto, passa segurança para as filhas.

– Cobre mais disciplina: Para a mãe tigre, a prática repetida leva à excelência – e por isso as crianças chinesas são tão boas em matemática e instrumentos musicais. Ela acredita que os pais ocidentais são muito tolerantes com relação ao treinamento.

– Sinta-se no direito de cobrar reconhecimento: para Amy, os filhos devem tudo aos pais, que se sacrificam e fazem de tudo por eles.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Familia/Rotina/noticia/2013/05/metodo-de-educacao-conhecido-como-mae-tigre-nao-cria-necessariamente-criancas-prodigio-diz-estudo.html – acesso em 06/04/2015.

Sobre socialização

Nascemos humanos? Talvez no sentido biológico, mas não no sentido social, destarte a socialização é esse interessantíssimo processo através dos quais todos somos inseridos no meio social. Embora ela ocorra de maneiras muito diversas sofrendo variação de acordo com o ambiente social, cultural e ecológico, socializar a criança é um dado universal para o ser humano. A entrevista que se segue demonstra como esse fenômeno é caro tanto à sociologia quanto à psicologia, mostrando a aproximação entre essas ciências, de forma que ela, a entrevista de Jean-Pierre Lebrun vem se somar a leitura do texto de Peter Berger sobre socialização em nosso estudo sobre o tema. Boa leitura e reflexões.

Ensinem os filhos a falhar
“… O processo de humanização começa pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.” – Jean-Pierre Lebrun

Jean-Pierre Lebrun

Nos últimos 30 anos, a ideia dos pais como senhores do destino dos filhos vem desabando progressivamente. As consequências disso não são necessariamente ruins, como explica o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, uma das principais referências na Europa no estudo sobre mudanças nas relações entre pais e filhos. Mas, para tanto, é preciso aprender a negociar com os filhos mantendo a autoridade. Leia abaixo a entrevista que Lebrun concedeu à revista Veja quando no Brasil para o 3º Encontro Franco-Brasileiro de Psicanálise e Direito.

Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Jean-Pierre Lebrun: Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje, a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E, na rede, não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.

Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
Jean-Pierre Lebrun: É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.

Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?
Jean-Pierre Lebrun: A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.

Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Jean-Pierre Lebrun: Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.

Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?
Jean-Pierre Lebrun: Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.

Mas o que essa perda tem a ver com o fato de as pessoas enveredarem por um caminho autodestrutivo?
Jean-Pierre Lebrun: É uma anomalia no processo de humanização. Não nascemos humanos, nós nos tornamos. Isso ocorre quando aprendemos aquilo em que somos singulares entre todos os animais que habitam o planeta. Somos os únicos capazes de falar. Não se trata apenas de aprender ortografia ou usar as palavras corretamente. Quando dominamos a faculdade da linguagem, adquirimos uma série de características muito especiais, como, por exemplo, a consciência de que somos mortais. Aprendemos a construir as pontes que levam a um entendimento superior do mundo e de nossa condição. Isso é o que nos diferencia e nos torna completamente humanos. Um desequilíbrio nesse processo pode ter consequências. É aí que entra a explicação psicanalítica para o ingresso no universo das drogas. Aprender a falar, ou tornar-se humano, é algo que não ocorre espontaneamente. É uma reação a uma perda do estado permanente de satisfação completa com a qual somos confrontados na primeira infância. Ou seja, o processo de humanização começa pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.

Com que consequências?
Jean-Pierre Lebrun: Isso faz com que estejamos cada vez menos preparados para lidar com o sofrimento da nossa condição humana. Há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial, como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da insatisfação. As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas, sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar. Com o desenvolvimento da farmacologia, essas substâncias se tornaram muito acessíveis. Isso pode criar distorções. É muito mais simples tomar uma Ritalina para não ser hiperativo do que fazer todo o trabalho de aprender a suportar a condição humana. Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais aceitável e menos traumática.

Por que as drogas têm apelo especial para os jovens?
Jean-Pierre Lebrun: Eles são mais sensíveis a esse fenômeno porque têm uma tendência espontânea a, quando se tornam adultos, ser novamente confrontados com as dificuldades da existência. É, de certa forma, a repetição daquilo que haviam vivenciado na infância, quando foram, ou deveriam ter sido, apresentados à ideia de perda da satisfação completa, de que não ficariam com a chupeta na boca a vida inteira, por exemplo. Se, no ambiente em que esses jovens vivem, há uma abundância de produtos que funcionam como um meio de evitar essas dificuldades, eles mergulham de cabeça. Como também veem nisso certo caráter transgressivo, todas as condições estão dadas para que eles recorram às drogas.

Que conselhos o senhor daria a pais que têm filhos viciados?
É preciso não achar que, pelo fato de os filhos usarem drogas, tudo está perdido. Isso não contribui em nada. Caso contrário, o jovem drogado, além de conviver com o próprio drama, terá de carregar a angústia dos pais sobre os ombros. Esse é o momento em que os pais devem aceitar que algo não funcionou direito em vez de tratar o problema como se tudo estivesse perdido. Nem sempre está.

Há alguma terapia que funcione contra a dependência química?
Cada caso requer um trabalho. Não existe terapia milagrosa. Há tentativas interessantes, de pessoas que se ocupam de refazer com o sujeito o trabalho de suportar as frustrações, as impossibilidades, os limites. Esse trabalho pode ajudar as pessoas a se livrar da dependência. Não existe até hoje uma droga que chegue a resolver o problema da droga. Momentaneamente, a pessoa pode até ficar contente se conseguir se tornar um pouco menos ansiosa, mas é preciso ver que efeito isso tem a longo prazo.

Existem dependentes irrecuperáveis?
A psiquiatria não é uma ciência universal, ela não diz o que vale para todos, ou mesmo para uma série de pacientes. É preciso trabalhar sempre caso a caso. Mas eu não diria nunca que um viciado em drogas é irrecuperável. Existem outros elementos em jogo que precisam ser considerados. Não há dependência química que não seja fruto de uma interação malsucedida entre o contexto social em que o indivíduo está inserido e o seu trajeto singular desde a infância.

Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter?
Jean-Pierre Lebrun: Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.

O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
Jean-Pierre Lebrun: O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos.

Fonte: http://www.fronteiras.com/entrevistas/ensinem-os-filhos-a-falhar – acesso em 05/04/2015.

Zygmunt Bauman, um contemporâneo a ser lido

Zygmunt Bauman é dos sociólogos contemporâneos mais relevantes, mesmo que se discorde de suas ideias e método de abordagem. Sua extensa obra tem se propagado no mundo acadêmico brasileiro destacando-se, principalmente, por um aspecto que relevante faz de uma obra: faz pensar.

Nesse sentido, gostaria de compartilhar o trecho de sua mais nova obra lançada no Brasil “Pra que serva a sociologia?”. Boa leitura!

Novo livro de Z. Bauman

O que é sociologia? Por que fazer sociologia? Como fazer? Qual o seu alcance? Essas quatro perguntas são respondidas por Zygmunt Bauman, em sua mais recente obra lançada no Brasil, Para que serve a sociologia?. Nesta série de conversas com Michael Hviid Jacobsen e Keith Tester, Bauman esclarece os princípios que regem seu próprio trabalho, sua vida e sua carreira. O sociólogo polonês reconhece as ideias que o influenciaram e explica como construiu um conjunto de conceitos para interpretar o mundo contemporâneo – como a ideia central de “liquidez” -, explicando o porquê de se afastar da corrente geral da sociologia, que caracteriza nossa época como “pós-moderna”. Leia abaixo o trecho inicial do livro Para que serve a sociologia?, lançado pela Editora Zahar:

Michael Hviid Jacobsen e Keith Tester: Olhando em retrospecto sua trajetória sociológica, vê-se que seu trabalho foi inspirado inicialmente pela sociologia polonesa das décadas de 1950 e 1960, após o que seu ambiente sociológico próximo tem sido a sociologia britânica. Como você diria – em retrospecto – que essas diferentes fontes de inspiração – a sociologia polonesa e a britânica – influenciaram e moldaram seu pensamento?
Zygmunt Bauman: “Olhando em retrospecto”, como vocês me pediram, dificilmente poderia identificar um divisor de águas ou um violento choque entre “fontes de inspiração”. Ao decolar da Polônia, eu já havia iniciado minhas viagens sociológicas, e pousar na Grã-Bretanha não provocou nenhuma mudança importante em meu itinerário. Separada por uma barreira linguística, a “sociologia polonesa” parecia um universo diferente, mas, por favor, tenham em mente que essa barreira era unilateral: o inglês era então a língua “oficial” no reino da sociologia, e os sociólogos poloneses liam os mesmos livros e seguiam os mesmos caprichos da moda e meandros de interesses que seus colegas do outro lado da Cortina de Ferro. Além disso, a sociologia britânica do início da década de 1970 não estava exatamente na linha de frente das tendências mundiais, e, para um recém-chegado da Universidade de Varsóvia, não havia muito com que se familiarizar; na verdade, as descobertas realizadas naquela época nas Ilhas Britânicas, em quase todos os aspectos, eram velhas e por vezes até antiquadas na área do Vístula.

A maior parte dos temas que, na minha presença, provocavam entusiasmo em meus colegas britânicos (tais como as descobertas de Gramsci, da Escola de Frankfurt, da “culturologia”, da hermenêutica, da insignificância do “funcionalismo estrutural” e da magnitude do estruturalismo etc.) eu já havia examinado na companhia de meus colegas poloneses muito antes de aportar na Grã-Bretanha. Para resumir uma longa história, minha primeira década neste país pode ter sido cheia de som e fúria, por uma série de razões (e realmente o foi, como confessei a Keith Tester muito tempo atrás), mas isso significou muito pouco em termos de minha visão acerca da vocação sociológica.

MHJ e KT: Você sempre definiu a sociologia como um “diálogo com a experiência humana”. Isso sugere duas questões. A primeira delas é: o que você quer dizer com “experiência humana”?
ZB: Para mim isso significa tanto Erfahrungen [experiências] quanto Erlebnisse [vivências]: os dois diferentes fenômenos gerados na interface pessoa/mundo, que os alemães distinguem e separam, mas os falantes de outras línguas, por falta de termos distintos, fundem na noção de “experiência”. Erfahrung é o que acontece comigo ao interagir com o mundo; Erlebnis é “o que eu vivencio” no curso desse encontro – o produto conjunto de minha percepção do(s) acontecimento(s) e meu esforço de absorvê-lo e torná-lo inteligível. Erfahrung pode almejar, e de fato almeja, o status de objetividade (supra ou interpersonalidade), enquanto Erlebnis é evidente, aberta e explicitamente subjetiva; e assim, com alguma simplificação, podemos traduzir esses conceitos como, respectivamente, aspectos objetivos e subjetivos da experiência; ou, acrescentando uma pitada de interpretação, a experiência elaborada e a experiência não elaborada pelo ator. A primeira pode ser apresentada como um relato proveniente do mundo externo ao ator. A segunda, como algo vindo “de dentro” do ator e concernente a pensamentos, impressões e emoções privados, só é disponível na forma de um relato feito por ele.

Nos relatos da primeira categoria, ouvimos falar de eventos interpessoalmente verificáveis chamados “fatos”; os conteúdos do segundo tipo de relatos não são interpessoalmente verificáveis – as crenças relatadas pelo ator são, por assim dizer, as definitivas (e únicas) “verdades”. O status epistemológico de Erfahrungen e Erlebnisse difere, portanto, enormemente – circunstância responsável por muita confusão na prática da pesquisa sociológica e acima de tudo nas interpretações de suas descobertas. A confiabilidade e a relevância de evidências fornecidas por testemunhas mudam de acordo com o objeto do testemunho – e isso se aplica a ambos os parceiros no permanente “diálogo entre a sociologia e a experiência humana”.

MHJ e KT: A segunda questão: em que consiste esse diálogo? De que modo a sociologia nele se envolve e o que faz valer a pena esse envolvimento? Por que ele deveria ser lido por não sociólogos?
ZB: Como em todas as conversas, a sociologia se envolve no diálogo com a doxa laica – o senso comum ou o conhecimento do ator. Isso envolve transmitir mensagens que se transformam em estímulos, que evocam respostas, que, por sua vez, se transformam em estímulos – em princípio, ad infinitum. A transformação de mensagens em estímulos efetivos é mediada pela recepção, seguida pela compreensão, que envolve, como regra, uma interpretação (seletiva). Em sua variedade sociológica, o diálogo visa ao confronto entre Erfahrungen e Erlebnisse, “relativizando” assim esta última, ao mesmo tempo que busca ampliar, em vez de estreitar e limitar, o espectro de escolhas dos participantes do diálogo.

A meu ver, o objetivo crucial desse diálogo permanente é, a longo prazo, a ruptura do hábito generalizado, talvez mesmo quase universal, dos “não sociólogos” (também conhecidos como “pessoas comuns em suas vidas comuns”) de fugir da categoria explanatória “a fim de”, quando se trata de relatar sua conduta, empregando em vez disso um argumento do tipo “por causa de”. Por trás desse hábito se encontra o pressuposto tácito, ocasionalmente articulado, porém sobretudo inconsciente e dificilmente questionado, de que “as coisas são como são” e “natureza é natureza – ponto final”, assim como a convicção de que há pouco ou nada que os atores – sozinhos, em grupo ou coletivamente – possam mudar no que se refere aos veredictos da natureza.

O resultado disso é uma visão de mundo inerte, imune à argumentação. Ela acarreta uma mistura verdadeiramente mortal de duas crenças. Primeiro, a crença na inflexibilidade da ordem das coisas, da natureza humana ou da condição dos assuntos humanos. Segundo, a crença numa fraqueza humana beirando a impotência. Esse dueto de crenças estimula uma atitude que só pode ser descrita como uma “rendição antes de se travar a batalha”. Étienne de la Boétie, admiravelmente, deu a essa atitude o nome de “servidão voluntária”. Em Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee, o personagem C. discorda: “La Boétie está errado.” E prossegue mostrando o que estava faltando naquela observação de quatro séculos atrás, e que, não obstante, está ganhando importância em nossos dias: “As alternativas não são a servidão complacente de um lado e a revolta contra ela de outro. Há uma terceira via, escolhida por milhares e milhões de pessoas todos os dias. É o caminho do quietismo, da obscuridade voluntária, da emigração interna.” As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir.

Com o questionamento da visão de mundo que sustenta esse “quietismo”, a variedade sociológica do diálogo voltado para a expansão da liberdade individual e o potencial coletivo da humanidade dedica-se à tarefa de revelar e decifrar as características do mundo que, embora possam ser decepcionantes e ambíguas, fornecem, não obstante, algumas bases para uma espécie de visão de mundo que sustenta e galvaniza continuamente as atitudes quietistas. A “relativização” visa a ambos os lados do encontro entre Erfahrungen e Erlebnisse: é a dialética de sua interação que poderia ser chamada de objetivo último do diálogo.

MHJ e KT: Você pode dar um exemplo disso?
ZB: Permitam-me retornar por um momento ao alter ego de Coetzee; uma vez mais, ele acerta na mosca ao apontar que aquela popular e profundamente entranhada

imagem da atividade econômica como uma corrida ou competição de certo modo é vaga em suas especificidades, mas parece que, como corrida, ela não tem linha de chegada nem, portanto, um fim natural. O objetivo do corredor é chegar à frente e ali permanecer. A questão do motivo pelo qual a vida deve ser equiparada a uma corrida, ou por que as economias nacionais devem competir entre si em lugar de se exercitarem amigavelmente em conjunto, em nome da saúde, não é colocada. Uma corrida, uma competição: é assim que são as coisas. Por natureza, nós pertencemos a diferentes nações; por natureza, as nações competem com outras nações. Nós somos como a natureza nos fez.

Prossegue ele: mas de fato “nada há de inelutável no que se refere à guerra. Se queremos a guerra, podemos escolher a guerra, se queremos a paz, podemos igualmente escolher a paz. Se queremos a competição, podemos escolher a competição; alternativamente, podemos tomar o rumo da cooperação cordial”.

Só para não deixar espaço a dúvidas quanto ao significado de sua observação, o C. de Coetzee assinala que

certamente Deus não fez o mercado – nem Deus nem o espírito da História. Se nós, seres humanos, o fizemos, não poderíamos desfazê-lo e refazê-lo de um modo mais benigno? Por que o mundo tem de ser um anfiteatro de gladiadores do tipo matar ou morrer em vez de, digamos, uma colmeia ou um formigueiro vigorosamente sinergético?

Ora, isso é, sugiro eu, um motivo determinante pelo qual, como pergunta você, “os não sociólogos deveriam ler sociologia”.

MHJ e KT: Isso confere prontamente à sociologia um contorno político. Qual a relação da sociologia com a política?
ZB: Inevitavelmente, por ação ou omissão, a sociologia está muito interligada à política. Numa sociedade como a nossa, dominada pelo conflito, com seus conflitos de interesse e suas políticas antagônicas, ela também tende com muita frequência a se tornar tendenciosa. Seu tema, afinal, é a interação de Erfahrungen e Erlebnisse; as Erlebnisse são endemicamente tendenciosas, e assim é a tarefa de decompor a ilusória “objetividade” das Erfahrungen.

O que torna a sociologia uma atividade intrinsecamente política é, além disso, o próprio fato de oferecer uma fonte e uma legitimação de autoridade distintas, ao contrário da política institucionalizada. Em nossa sociedade multivocal e multicentrada, essa não é, contudo, a única fonte de autoridade envolvida na competição com o establishment político – para não dizer sua única alternativa. Com a política controlada pelo Estado, dele originada e por ele autorizada cronicamente afligida pela praga da ineficácia causada por um perpétuo déficit de poder – após um longo período em que ela foi o foco de uma condensação e de uma monopolização genuínas ou almejadas –, a tendência hoje é um espectro de aspirações existenciais em permanente ampliação a se espalhar por todo o corpo social (relembremos o conceito de “política da vida”, de Anthony Giddens, quando ela assume, ou é onerada com, um número sempre crescente de funções que costumavam ser abraçadas e ciumentamente protegidas pela política institucionalizada, centrada no Estado e/ou por ele orientada).

MHJ e KT: Seria a sociologia uma prática ética, e, em caso positivo, de que modo?
ZB: Tal como no caso do “político”, a sociologia não pode deixar de ser ética (“prática ética” é, em meu vocabulário, um pleonasmo; ética é prática – de articular, pregar, promover e/ou impor regras de conduta moral). A moral é uma questão de responsabilidade em relação ao Outro; e o mais poderoso argumento em favor de assumir essa responsabilidade é a dependência mútua dos seres humanos, a condição que a sociologia investiga, exibe e busca infatigavelmente fazer compreender. Uma lição que um leitor de tratados sociológicos não pode deixar de extrair é a relevância das ações e inações dos outros para sua própria condição e suas expectativas, assim como a relevância de suas próprias ações e inações para as condições e expectativas dos outros; afinal, a responsabilidade que recai sobre todos nós, conscientemente ou não, em relação às condições e expectativas de cada um.

No entanto, devemos deixar claro que essas responsabilidades, quer sejam ou não evidentes e inquestionáveis, podem ser (e na verdade são) tão frequentemente assumidas quanto ignoradas. O máximo que eu arriscaria dizer é que, enquanto executam seu trabalho profissional de maneira adequada, os sociólogos estão inevitavelmente, de forma consciente ou não, preparando o terreno em que a consciência moral pode crescer, e com ela as chances de as atitudes morais serem assumidas e de a responsabilidade pelos outros ser cada vez mais aceita. Isso, porém, é o máximo que podemos avançar. O caminho que leva a um mundo moral é longo, sinuoso e cheio de armadilhas – as quais, diga-se de passagem, é tarefa do sociólogo investigar e mapear.

Fonte: http://www.fronteiras.com/entrevistas/zygmunt-bauman-para-que-serve-a-sociologia