Há entrevistas que são marcantes, mas estas são poucas e quando as encontramos ficamos muito felizes. Recentemente, pesquisando sobre o tema política e novas formas de fazê-la para embasar melhor uma palestra que iria ministrar, deparei-me com essa excelente, instigante e ácida entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro publicada no site outraspalavras.net

Estou disponibilizando a entrevista aqui em meu blog, mas antes gostaria de comentar os melhores momentos dela:

1. Segundo Viveiros de Castro, é uma “ilusão politicamente conveniente” a ideia de que “existe um Brasil”. Existem vários “Brasis” com predominância de dois, segundo o autor, sendo que um deles é muito marcante e perigoso, trata-se do Brasil com imensa “vocação conservadora” que compõe a grande parte da chamada sociedade brasileira e que (em sua maioria) “se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte.” Este é um fato muito preocupante e que merece um ensaio sobre sobre ele, mas de antemão posso afirmar que também percebo essa vocação para ditadura em nossa sociedade, atrelada particularmente a falta de cuidado para com a responsabilidade de cada um, assim um poder ditatorial “resolveria tudo”; Além disso, as pessoas não estão mais se indignando com os desrespeitos as leis por parte do Estado, por exemplo.

2. “A falta de instrução (…) é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira”. O pior é que não só a falta em si mesma da instrução é responsável por isso, mas a “má instrução” o é tanto quanto. Recentemente, pude observar isso na greve que participei na Universidade Estadual do Piauí. A falta de compreensão por parte de alunos e professores da importância da luta por uma universidade melhor demonstrou ser evidente consequência disso;

3. “Vejo a ‘sociedade brasileira’ imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da mídia  por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território”. No Piauí escutei que a cidade de Oeiras, onde leciono, é o “berço da civilização piauiense”, creio ser um exemplo muito límpido disso, um “ufanismo oco”, improdutivo, que não leva a nada. Temos que nos esforçar em compreender o que está errado ou poderia ser melhor em nossas sociedades, claro, sem deixar de observar o que é bom, mas gastando nossa energia para a crítica e não para o auto-elogio;

4. Sobre o conceito de “melhora de vida da população”, o autor faz uma crítica muito pertinente e interessante: “Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século”. Essa ideia/conceito de melhora de vida, do jeito que está posto e defendido pelos governos Lula/Dilma, é altamente reducionista e focado somente na questão material, ou seja, no consumo de bens. Não há incentivos efetivos a produção cultural, mas somente ao acesso a produção cultural vigente, da grande mídia. Assim , afirma Viveiros de Castro que “não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida ‘para’ ele“.

Há muito mais o que comentar dessa fabulosa entrevista, mas deixo-a agora para a apreciação de vocês: Outros valores, além do frenesi do consumo.

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